10.30.2014

A mulher que pisar fora dos estreitos costumes sociais será rotulada como "vadia", ou ainda [para atos hediondos e pegos em flagrante]: "puta".
Pode ser por usar regata de alcinha no lugar errado.
Pode ser por beijar mais homens em público do que o permitido.
Pode ser por apenas por ser jovem e bonita.
Pode ser por ser segura demais.
Pode ser por ter tido filhos cedo demais,
Pode ser por ter se apaixonado por outra mulher,
Pode ser por ter uma pele escura demais,
Pode ser por ter gritado alto demais numa sala de parto de hospital,
...ou uma combinação de todos esses fatores.

Não haverá punição pior do que os rótulos marginalizantes sobre uma mulher.
Não haverá amigxs para ela.
Não haverá emprego pra ela.
Não haverá família pra ela.
Não haverá segurança física ou psíquica para ela.

Haverá violência.
Haverá descrédito.

...é o que dizem - e fazem.

Mas sinto que tem uma violência
que poucas pessoas se dão conta
Para a "puta",
Para a "preta",
Para a "pobre",
Para a "lésbica",
Para a "mãe jovem demais":
Que é o esvaziamento completo da subjetividade do Ser.

O maior roubo não é a perda de uma falsa respeitabilidade,
Nem de falsas amizades, falsas relações...
...Mas sim ser rotulada e reduzida a uma "norma social quebrada"
Deixa-se de ser Maria, Joana, Ana, Carol...
Passa-se a ser a "falida", a "mãe jovem demais', a "lésbica", a "preta".
E o Ser reduzir-se a isso.

Esquecem-se de que Maria é um ativista social inteligentíssima,
De que Joana tem uma voz absurda de linda e canta como ninguém,
Nem reparam que Ana tem um talento incrível em fazer bolos deliciosos,
E quanto à Carol, poucos sabem, mas ela apesar de todas as dificuldades, tem se realizado com a maternidade e com a cuidadoria, inspirada por sua paixão de 2 anos e meio: Fabinha, sua filha.

Mas essas mulheres talvez tenham tido uma oportunidade
De entender uma verdade doida - e doída:
De que as pessoas geralmente se relacionam
Não com outras pessoas
Mas com os conceitos e rótulos impressos nelas.

E que isso não era válido apenas para os "marginalizados"
Mas mesmo as relações vistas socialmente como "amizade",
Como "afeto", ou mesmo "amor" [!]
Eram tão somente papéis interpretados
Num teatro trágico
Em que todos são atores
Que não tem platéia
E cujas cortinas estão seguradas por uma Anja Negra
Menstruada
Com uma foice nas mãos.

Mas esta que aqui vos narra,
Só vos narra por pura  fé
Que é possível tirar a máscara
Nem que seja por um só momento
Adentrar os bastidores do Tempo
E com outros atores desmascarados
Descarados, desencanados, desnudados,
Começar uma nova peça
Em que até a Anja Negra das cortinas
Terá Voz, Ato e Vez
E o roteiro [se houver] há de ser
Uma história de Amor
Com direito a não-final feliz

Satya Devi