9.17.2014

Eu poderia falar de política
Eu poderia falar de problemas sérios
Eu poderia falar de soluções e esperanças...

...É poderia.

Mas sabe... estou cansada.
Tudo parece sempre tão "indo pra frente" mas nunca sai do lugar.

Mas quando eu escuto os nomes santos
Alguma coisa em mim pára. Fecha os olhos. E absorve.

A política também é santa.
Os problemas sérios, as tragédias: lá está o rosto do Amado.
As soluções e esperanças: as garras de Kali.

Posso ver. Posso sentir.
O vento soprando em uma direção diferente.
Sopram pra dentro. Sopram mais frescos.

Vozes em minha cabeça me condenam.
Espiritualidade na minha terra é coisa de preguiçoso,
de inconsequente, de irresponsável,
de quem não tem conta pra pagar.

Ninguém se pergunta quanto custa cada conta paga!

Já parou pra pensar?
Quantos beijos deixou de dar pra pagar suas contas?
Eu já deixei tantos...
E o tempo ruge ao meu lado,
e não sei quando a Fera vai me devorar
Não tenho mais tempo a perder.
Não tenho mais beijos a perder.

Já me escaparam suspiros demais...

Algo em mim quer rugir, quer lutar...
Uma parte mais profunda,
Já venceu e já perdeu,
Já desistiu e persistiu,
E só quer agora ficar.

Até quando, ó Espelho distorcido,
Negarás a mim o néctar da Imortalidade
Que por Milagre foi depositado em minha taça?!
Tu que te derretas!
Que te partas em mil pedaços
Ou que te acertes de uma vez
E resplandeça em Ti o Infinito, sem distorções!

Tu te retorces, te reviras, te agitas e paralisas
Enquanto o cálice se aproxima de minha boca

Estou a um gole da loucura.
Estou a um gole da Eternidade.
A um gole de Ser o que sempre fui
E nunca deixarei de Ser.

Retorce-te no espelho.
Fazes as caretas e truques mais birrentos
Eu só sigo aproximando a taça dos lábios
Não temas a morte, caro espelho,
Nada do que realmente importa, morre de verdade.
E do que morre, nunca foi ou É de verdade.

Abençoa minha partida.
Abençoa minha jornada...
Conheço teu verso, misterioso Espelho...
Duro, frio, opaco e cinza como tu pensas que nunca serás.

Nos vemos no Verso, querido Espelho...
Do lado de Lá...


- Satya Devi

Ritmo

Ritmo.

Sem ritmo não há Dança.
Sem ritmo não há Arte.
Sem ritmo não há Vida.

Dispensável é a rotina,
Mas o Ritmo jamais.

Seu coração.
Ritmo.
Ciclos hormonais.
Ritmo.
Estações anuais.
Ritmo.
Nascer, crescer, florescer e morrer.
Ritmo.

Fiz que ia, mas não fui.
Ritmo.
Agora vou cresço e explodo.
Ritmo.
Agora paro. Só respiro.
Ritmo.
Agora giro. Olhar fixo.
Ritmo.

Muito rápido, mais devagar.
Ritmo.
Agora lento demais. Acelerar.
Ritmo.
Fecho os olhos abro os ouvidos.
Ritmo.
Solto o corpo. Conduzo a mente.
Ritmo.

Agora começo.
Ritmo.
Agora parece que termino.
Ritmo.
Agora volto.
Ritmo.
Agora vou.
Ritmo.

Agora tudo se esvai em Silêncio.
Deixo que o Ritmo pulse dentro de mim.

Nem sempre haverão tambores e cítaras.
Mas há sempre um Silêncio tocando
O Om em todo  som

O Ritmo não muda
só porque eu não o ouço.

Ouço.
E ouso
Dançar.

- Satya Devi

9.14.2014

Sobre silêncio e palavras

Sobre silêncio e palavras - reflexões sobre um dia e meio em voto de silêncio.

Um dia e meio é muito pouco para dizer qualquer coisa sobre esse voto num nível mais profundo. Mas suficiente para ter uma noção básica de seus efeitos ao menos iniciais. Como um mergulho em alto mar, em que vamos só alguns metros abaixo d'água...

Já há bastante tempo venho estudando a Palavra e o Silêncio. Quanto é possível falar com o corpo, com o olhar! Na casa, minhas companheiras de morada e eu resolvíamos quase tudo apenas com o olhar. Tudo o que importava de verdade.

A palavra acaba sendo uma válvula de escape da consciência. Enchemos nossa cabeça de asneiras, de superficialidades e banalidades como um vício. Como esperar algo diferente de uma sociedade que não cultiva seu íntimo com Amor?

Mas de tudo que fica é esse poder que a Palavra tem de 'formatar' o pensamento. Se não encontramos palavras pra algo, esse algo corre o risco de deixar de ser notado na consciência. Assim, tendemos a notar apenas o que conhecemos palavras pra expressar. No voto de silêncio, a lógica se inverte. A palavra não mais é necessária, a consciência fica livre para experienciar o mundo de um outro ângulo, captando coisas mais sutis - e mais reais do que o bla bla bla do dia a dia.

Sinto também que a palavra acaba sendo usada como um meio de nos identificarmos e afirmarmos individualmente. O silêncio que brota de mim é - ao menos aparentemente - o mesmo que brota de você. Já a sua voz é diferente da minha. Portanto, a voz, a palavra, acaba sendo essa forma de "se fazer/sentir existente" perante o outro ao mesmo tempo que "fazer-se à parte" do outro. Olha só... Se Comunicação é "tornar algo comum", podemos dizer que falar depende necessariamente de um "tornar-se separado". Quando muitos em coletividade fazem voto de silêncio num mesmo espaço, é impressionante como os olhares e os corpos "falam" uma linguagem própria, que é esquecida com o uso indiscrimidado das palavras. Assim como em uma experiência de profunda intimidade, quando dois [ou três ou mais] se fazem Um, ou uma experiência de profunda transcendência, a comunicação verbal é absolutamente desnecessária. Seja num momento de Amor, de Dança, ou qualquer outra situação de experiência de transcendência do "eu". Ainda assim, os corpos bailam, ou vozes cantam, ou tudo junto... Esse é o momento em que Comunicação dá lugar a Expressão. Não há o que "tornar comum", porque não há separação. Mas ainda assim, há algo a expressar, algo a transbordar. Nem que seja simplesmente Silêncio.

Continuo uma grande fã e estudiosa da Palavra e do Silêncio. Tenho estudado este casal divino há meses [ou deveria dizer que tenho sido estudada por eles?] e seguirei estudando. Fica o desejo de em breve fazer um voto de silêncio mais longo e preparado. De preferência longe de qualquer palavra escrita/lida também. As leituras 'aliviam' um pouco nosso vício por palavras. Já que o silêncio pode às vezes ser um tanto desesperador...

A experiência reforça minha sensação de que a Palavra é ao mesmo tempo nossa prisão e nossa libertação.
De que o Silêncio pode ser nossa perdição ou nossa salvação.
Como duas espadas afiadas nas mãos de uma Deusa.
E já dizia a Sábia Senhora de Santana: "que a faca que corta não dá taio sem dor".

Gratidão!

9.04.2014

E foi então que eu olhei pra Ela.
Ela era Eu. Eu era Ela.
Ela sou Eu. Eu Sou Ela.
Vasta. Infinita. Plena de energia e vida.
Sentindo o impulso de doar-se
Tão forte quanto o de respirar
Eu doei.
Eu doí.
E respirei.

E de tão absolutamente Vasta que era
Exalei meu próprio ser para o lado de fora
No prazer inexplicável de expulsar-me de mim

Esvaziei-me de mim mesma
Espalhando-me entre os que me chamavam
Até o total esquecimento

Até que...
Vazio.
Somos todos iguais em Vazio.

E então sentindo o impulso de retornar
Tão forte quanto o impulso de inspirar
Eu retornei
Eu tornei
E respirei.

No prazer infinito e inexplicável de retornar a mim mesma
Eu gozei a Plenitude de Ser novamente
Inteira.

E então eu lembrei
E chorei
E respirei

Pois quando penso que esqueço
Lembro-me que sempre sei.
Pois é preciso esvaziar-se
E é preciso retornar

Por anos a fio
esvaziei-me em outros olhos
outros braços outros corpos
Momentos de expulsar-me de mim
no gozo dos que me recebiam

Por anos a fio
Inspirei a mim mesma de olhos fechados
Abracei ao meu próprio corpo
Momentos de retornar a mim
no desespero dos que tentavam me manter

Eu realmente sinto muito.
Não posso evitar.
É um impulso
como respirar

Da mesma forma que vou
E esvazio-me de mim,
eu volto.
Da mesma forma que volto
E transbordo de mim,
eu vou.
De novo...
E de novo...
E de novo...

E a cada vez que volto
Levo um pouco dos que fui
E deixo um pouco de mim
Por onde passei

Irremediável é a dor
de transbordar-me
onde não encontro braços para receber-me
ou de retornar e mim mesma
em braços que não me deixam partir

Mas compreendo
Que dos braços que se retraem
Ou dos braços que se abrem
Não podem evitar
É um impulso que sentem
Como respirar

Se um dia enlaçam-se os corpos
Fundem-se os olhares
E os braços se abraçam
É pela graça da Suprema Dádiva
Que é doar-se ao mesmo tempo

Quão improvável não é
Que ambos estejam ao mesmo tempo
Doando e recebendo
E no Infinito do cosmos
possam os corpos
no momento exato
se encontrar?

E eu que um dia fui puro Impulso
Hoje sou Rendição
Rendendo-me ao ir e ao voltar
Ao retrair e ao transbordar
Já entendi
Que não há contra o que lutar
Se não contra mim mesma

E se fizer-se o Impulso Divino
Podemos render-nos unidos
Aos Divinos Impulsos
De inspirar e respirar
Retrair e Transbordar
Sair e Entrar

Até que cesse o Divino Impulso
ou o pulso.


Afinal,
Ela era Eu. Eu era Ela.
Ela sou Eu. Eu Sou Ela.

O Alem-Mascara

Personagens.

Quanto da tua vida é atuação?
Quanto é A Tua Ação?

Longe das faces pré-planejadas
Obvias, e (aparentemente) tão reais...

...outro universo.
Nada menos ou mais do que isso.

Universo em que cabe ódio no amor
Em que cabe tédio na paixão
Em que cabe desesperança no desespero
Em que cabe gozo na dor
Em que cabe alegria na ruína
E Poesia na Miséria

Ah, ator, atriz supremx!
Desatada de tuas máscaras
O Imprevisível. O Enorme.
O Divino.
Não há para Ti outro nome
Se não todos os nomes do mundo

Impossível não cair de joelhos, em devoção
Pois reconheço aqui, em Ti,
Nessa Força do Além-Máscara
Aquela e Aquele que tanto fui e busquei

Reconheço-Te.
Mas não a Mim.
Toco-te fundo, palpável, humana
E eu pareço esvanescer como fumaça de incenso

Quando Te toco
Apenas contemplo
A fumaça de incenso
Em seus rodopios no espaço

Se por algum motivo
Não Te toco mais
É desespero
De ver-se desfazendo
Sem nem se quer importar-se
Não de Verdade
E por isso, o medo.

Já não posso mais voltar
A ser a solida vareta de incenso
Que um dia fui
Tampouco me fundo a Ti de uma vez
Como às vezes inevitavelmente desejo

"Que se vá esta carne pesada!"
Penso eu
"Leve-me agora!
Te vejo, te toco,
E me fundiria contigo 
não fosse esse peso ridículo!"

Ao que Tu em amorosa Furia responde:
"Tu que pensas que sabes a hora de voltar a mim
A mim ainda não terá enxergado de fato - ainda que tenha visto.
Sabes que nao é ainda nossa hora
Por que te questionas?
E por que ainda perguntas?
Se fundidas estamos
Até o limite da vitalidade
Tu tudo sabes.
Não perguntes em vão..."

"Por que me dói a Alma, então,
Ó Minha Mãe?"

"É dor de parto, minha filha,
Chamai-me agora de Avó
Pois tu agora sois a Mãe de si mesma"

- Satya Devi