9.26.2013

Houve um tempo em que eu era viciada em uma certa música melancólica e lânguida.
Ela me lembrava de amores doídos e às vezes me fazia chorar.
Era um vício. Não tinha o que fazer.

Até que eu entendi. Assim do nada, de uma vez só, eu me lembrei...
De um tempo, que foi há muito muito tempo, em que eu adorava essa mesma música triste, mas não tinha um triste motivo que justificasse eu gostar tanto dela.
Então eu inventei um motivo.
E quando este motivo se foi, eu inventei outro...
E depois outro...

Hoje, eu ouço a mesma música - sou cada vez mais apaixonada por ela.
E verto as mesmas lágrimas agridoces.
Dessa vez,
sem desculpa.

Só pelo prazer desavergonhado e obsceno de sentir prazer nessa melancolia lânguida dentro de mim.
Assim mesmo... Descarada.
E sorrindo.

Mulheres da Vida

Mulher da Vida SIM! Como não?!
De Morte já me basta a Morte dos sonhos, do Amor e da libido selvagem!

Mulheres da Vida, Mulheres do Mundo!
Deliciosas carnes transbordando Vida por todos os poros!
Ah, sim! Como não?!
Levando o divino óleo entre as engrenagens que machucam nossos corações
Levando o leite materno para os bebês chorões
Levando a vida pulsante entre as coxas para os sedentos

Mulheres... Mulheres... Da Vida, sempre!
Que de Morte, já me bastam as concretas mulheres cinzas
De sorrisos amarelos e cabelos coloridos
Coloridos? Cores tão pálidas como suas peles sem Sol!
Sensatas e austeras, sempre tão corretas
Só podia ser Mulher de Morte
Uma Morte preguiçosa e esquecida
que esqueceu-se de levar suas vítimas consigo
Ou uma Morte cruel e profana
que faz suas vítimas agonizarem em vida
Antes de voltarem ao Grande Útero do Universo

Mulher da Vida Sim! Precisamos de vocês!
Precisam de nós!
Quem mais poderia dar voz aos injustiçados?
Dar comida aos famintos?
Dar cores à Primavera?
Dar calor aos que morrem de frio?
Dar Amor aos mal-amados?
Dar compreensão aos incompreendidos?

Mulheres da Vida! Jorrem sobre nós suas Divinas Águas
Fertilizem nossas mentes e coração
Permitam a nós, sementes tímidas,
plantarmo-nos em vocês, germinarmos e criarmos raízes e copas
Que não é por nada, ó Divinas,
Se não pela alegria de levar flores a vocês!

Sou devota das Mulheres da Vida!
Mulheres do Mundo!
Que do céu e do inferno já me bastam as histórias mal-contadas!
Que pulse o mundo, tão vivo quanto só o Hoje pode ser
Dentro e fora de mim!
Se não fossem as Mulheres do Mundo,
Quem mais poderia nos dar a lucidez?
Iluminar-nos com a Verdade?
E fazer com que olhemos para o Mundo como ele é,
e ainda assim... amá-lo?!

Sim! Nós, mulheres da Vida! Mulheres do Mundo!
Levamos a Vida e o Amor aonde quer que eles precisem estar
E a Vida e o Amor nos levarão aonde quer que precisemos estar

Esta é nossa suprema bruxaria, nosso único feitiço, nosso Sacro Ofício
E leva-se uma Vida inteira, e um Mundo inteiro - ou mais
Para realizá-lo

Mulher da Vida! Mulher do Mundo!
Graças à Deusa

9.22.2013

O Sentido da Vida

Não há nenhum grande objetivo em viver, a não ser a própria vida.
Não vivemos pra sociedade, pra religião, pra família... É uma mentira dizer que necessariamente precisamos embutir algum sentido à existência para que ela "faça sentido".
"Qual o sentido da Vida?", perguntava-me...
Oras! A vida não precisa de sentido. Muito menos fazer sentido.
A vida justifica-se por si mesma! A vontade, o sentimento, o Ser, o experienciar...
Colocar qualquer outro objetivo nisso que não a Vida por si mesma, é alienar-se da própria Vida. É morrer aos poucos, acreditando que "Ah, é a vida, neh..."

9.20.2013

Chamado às Divinas Trovadoras

Ó Divinas Trovadoras, Poetisas e Artistas! 
Nós suplicamos vossa ajuda!
Nossos homens esquecem-se de quem são!
Nós imploramos
Cantem-lhes sua beleza, sua força, sua coragem,
Desenhem suas emoções, suas paixões, sua devoção
Dancem sua fragilidade mais pura, sua sabedoria, sua alegria!

As mulheres hoje já voltam para as florestas, encontrar-se com Aquelas que lá se esconderam pelos séculos...
Já re-acendemos nossas fogueiras, queimamos nossas vestes e em breve devemos dançar nuas novamente...
E das que ainda não despertaram de seu sono secular
Já são chamadas por nós em seus sonhos

Mas os homens, ó Trovadoras! Ai, os homens...
Lamentam por entre os cantos a Amélia perdida...
Procuram propriedades e prioridades desesperadoramente...
Escravizam as próprias mães e depois fazem de suas esposas suas mães
E quando não acham - pois toda Amélia está voltando a ser Lilith
Desesperam-se!
Descabelam-se!
Choram desconsolados pelos cantos sem seio que os acolha em sua ignorância violenta

Eles se esquecem, ó Trovadoras,
Do canto que prenderam no peito
Da lágrima que contiveram na garganta
Do fogo inocente que os faziam saltitar por entre as matas e cachoeiras!

Ó Trovadoras, se ainda resta-lhes alguma piedade e uma única gota de Inspiração,
Por favor, atendei nosso chamado!
Pois não é por nada se não por esquecimento que tombam nossos homens
Um a um, desconsolados
Eles padecem, ó Trovadoras, do mesmo Mal que padecemos nós mulheres pelos milênios a fio...
O pior mal de todos os males, que é esquecer da própria Natureza

Por isso, suplicamos a vós, ó Trovadoras,
Canta alto e claro a beleza verdadeira de nossos Homens!
Toquem em suas harpas e sítaras, da paixão profunda e espontânea que brota no coração dos Homens 
Cantem, pelo Amor, alto e claro, de todas as vezes que nossos Homens prostram-se em lágrimas, dilacerados pelas dores inerentes a todos os Seres.
Até que as palavras de frieza e insensibilidade sejam derretidas como a neve se dissolvem na Primavera!
Até que os cantos épicos de violência e ganância sejam emudecidos e esquecidos para sempre!

Lembra-os, ó Divinas Trovadoras, do quão maravilhoso é a dança de mil homens dançando juntos a chegada do Verão
Lembra-os, ó Divinas Dançarinas, da coragem infinita que brota no coração dos Homens apaixonados
Lembra-os, ó Divinas Desenhistas, dos traços de profundo afeto que brotam das janelas das Almas de nossos Homens quando fazem-se pais!

Cantem! Dancem! Louvem!
À energia divina e deliciosa que flui entre os verdadeiros Homens quando partilham de verdadeira amizade
À alegria contagiante e espontânea que brota de piadas, lembranças e absurdos que só os Homens sabem dizer

Lembra-os de que dedicam-se ao mais bravio ato de coragem de todos: que é o Amor.
E justamente às formas mais indomáveis de Amor: o Amor à Mulher selvagem, ao filho peralta, à Mãe cruel ou benevolente, ao Pai exemplar ou ausente e também ao outro Homem ao seu lado, amigo ou amante, companheiro para alegrias e tristezas.
Todos esses Amores o verdadeiro Homem carrega e honra dentro de si
Independente de sua Vontade
Com suas dores e prazeres
E ainda assim, permanecem.

Ó, por favor!
Cantem! Dancem! Louvem!
Mas por favor, cantem alto!
Dancem nuas!
Louvem fervorosas de Fé!
Pois são altos os gritos que gritam as mentiras para nossos homens!
Não deixeis, ó Sagradas Trovadoras, que a mentira contada nos alto-falantes sejam mais altas que seus irresistíveis e sedutores sussurros no coração de cada Homem!

Venham, e venham rápido!
Nossos Homens já desmaiam de sede no deserto pro qual as mentiras os levaram!
Que jorrem de suas divinas bocas as águas sagradas da Plenitude que pode matar-lhes a sede! 
Se a nós mulheres foi proibido beber das águas da Divina Mãe,
que nunca nos faltou em Espírito,
A eles faltou-lhes tudo
E da miséria e violência que nós recebemos por milênios
Eles experimentaram-na por dentro por todo este tempo

Por isso, ó Deusas da Inspiração, Musas e Ninfas,
Nós lhes suplicamos!
Cantai que é agora é tempo de vocês a cantar
As canções proibidas pelos tempos
Que por vocês jamais foram esquecidas

As canções que contam a Verdade
Sobre quem são os Homens de Verdade
Porque, na Verdade,
Dentro de cada Homem de Verdade
Habita uma Mulher calada pela mentira
E dentro de cada uma de nós, mulheres
habita um homem perdido
que desmaia de sede.