12.15.2016

Um dia, eu era menina
e chamaram-me "Puta"
e eu chorei.

Um dia, eu era adolescente
chamaram-me "puta!"
e eu senti vergonha.

Um dia, eu era fera no cio
chamaram-me "puta!"
e eu gostei.

Um dia, eu era moça
chamaram-me "puta!"
e estremeci: será?

Um dia, eu era mulher
chamaram-me "puta!"
Eu, naturalmente, sorri.

- Satya Devi

11.04.2016

Um Conto sobre Empoderamento

Eu reprovei minha prova de direção 3 vezes antes de ser admitida, na quarta vez e tirar minha carta.

No celtinha prata das aulas, sem direção hidráulica ou câmbio automático, diante do meu professor, eu era uma condutora exemplar.

No Astra automático do meu pai, diante dele, eu era uma negação. Tremia da cabeça aos pés, tinha sintomas de crises de pânico. Eu tinha o talento de fazer um carro automático morrer numa rua plana (!!!). Pressão caía, eu me sentia incapaz. Incapaz de atender às altíssimas expectativas dele.
Incapaz.
Impotente.
E presa nisso.

Uma bela noite, na casa de amigos da minha irmã, isso mudou.

Precisávamos dar uma passada no shopping, que era alguns quarteirões dali, mas era noite para andarmos as 3 meninas a pé até lá seria perigoso. Fomos até o escritório do padrasto da minha amiga pedir uma carona. Um estrangeiro, meio hippie, com os cabelos loiros e grisalhos, longos e amarrados num rabo-de-cavalo baixinho, e quase 2m de altura. Companheiro de uma das dançarinas do ventre mais poderosas que eu conheci. Uma figura atípica, quase alienígena ao meio em que eu vivia, mas que me inspirava profunda simpatia. Ele falava muito pouco português e conversamos em inglês. Quando pedimos a carona, ele olhou pra mim e disse:

-"Você. Quantos anos tem?"
- Dezoito.
- Você dirige?
- Eu acabei de tirar, mas ainda não tenho confiança de dirigir. Reprovei várias vezes e...

Antes que eu pudesse terminar minha fala ele simplesmente jogou amigavelmente as chaves do carro na minha direção com um sorriso.

- Já pilotou um carro automático?
- Sim, mas nossa... Eu não consigo, é muita responsabilidade...
- Nah. Você é uma garota inteligente e cuidadosa. Tenho certeza de que é capaz de ir até o shopping e voltar.

E tranquilamente, voltou-se ao seu notebook, continuar seus trabalhos... A tranquilidade dele em confiar em mim, que ele nem se quer conhecia, me paralisou.
Demorei, conversei, pensei, ponderei, e aceitei.

E de repente lá estava eu, conduzindo o maior carro que já havia conduzido, uma Chrysler, 4x4, caminhonete, indo até o shopping, com duas menores de idade no carro. Eu jamais seria capaz de pagar os reparos daquele carro se qualquer coisa acontecesse.

Dirigi, rindo de nervoso, nos primeiros 30 segundos. E depois, foi perfeita serenidade. Só a parte de passar nas cancelas do shopping foi um pouco apertado, mas com jeitinho deu tudo certo.
Foi como um ato de de desobediência civil. A sensação era de estar fazendo algo totalmente fora da lei, mas paradoxalmente, muito justa e muito simples! Todos deveriam ter o direito básico de ir e vir, não?

Lembro de ter chorado, em algum momento logo após o ocorrido.

Um estranho confiou em mim, e isso fez com que eu confiasse em mim.
E confiar em mim mesma me tornou capaz.

Não sei se aquele homem sabe o tamanho do que fez por mim. Talvez fosse ele consciente de que as mulheres e meninas são historicamente desempoderadas e convencidas de que são incapazes (considerando que ele tinha vários traços de ser muito aprofundado em sua espiritualidade alternativa).
Talvez ele só estivesse com preguiça de dirigir.
Não importa.

Ele confiou em mim como ninguém confiava, e aquele gesto me tornou capaz. Ou melhor: deu-me a oportunidade de demonstrar a mim mesma que eu era capaz.

Capaz de dirigir aquele tamanho de carro, eu seria capaz de dirigir qualquer coisa - inclusive minha própria vida.
E agora que eu sabia que era capaz, nada mais seria o mesmo.

Hoje me peguei pensando sobre isso...
E sobre o quanto em nossas vidas que nós deixamos de realizar porque acreditamos quando os outros nos dizem (verbal ou não-verbalmente) que não somos capazes.

E sobre o quanto que o papel que podemos exercer na vida uns dos outros em nos revelar capazes.

Talvez seja esse o papel dos professores, instrutores, achariyas: confiar na habilidade inerente de cada um em florescer a própria espiritualidade, o próprio Poder, o próprio Amor.

Talvez empoderar seja atribuir confiança ao outro.
Seja confiar na capacidade inerente do outro.
E fazer isso com tamanha verdade e tamanha tranquilidade que o outro mesmo acredite-se capaz através dessa mesma confiança e Amor.

Amar ao próximo com tamanha sinceridade e abertura que o próximo descubra em Si Mesmo o Amor Próprio e o Amor a todos os seres.

Curar ao próximo com tamanha serenidade que o próximo descubra Si Mesmo o poder de curar a si mesmo e aos demais.

Demonstrar um ásana [postura] do Yoga com tamanha tranquilidade e confiança, que quem veja acredite na própria capacidade de realizá-lo com igual serenidade.

E assim o Empoderamento e o Amor seguirão como vírus Terra afora.

E estupefada, agora percebo: aquele homem com quem eu só conversei uma única vez, foi um precioso achriya em minha vida.

Gratidão, homem misterioso!

Talvez o que falte, em especial às mulheres, seja alguém que lhe olhe com confiança e tranquilidade e lhes diga: "você é capaz".

Talvez seja esse o papel que eu tenha desempenhar na vida de quem queira trocar comigo. Dizer-lhes: "você é capaz".

Você, que aqui me lê, saiba: você é capaz!

Abraços com Amor,

Satya Devi

11.01.2016

Virgindade: 'perdi' o quê?

Hoje eu me peguei mergulhada no terror que eu sentia quando era pré-adolescente e adolescente da expressão "Perder a Virgindade"...

Lembro que semanas antes de ter minha primeira relação com um homem, eu me questionava se eu de fato iria 'Perder' alguma coisa e o quê. Se era mesmo algo que eu queria fazer... Transar antes do casamento. E ao mesmo tempo, meu corpo, e minha mente não tinham dúvidas.

Toda sexualidade era 'proibida' para eu e minhas amigas. Pela Lei e pela sociedade. A Lei dizia coisas como se apenas após os 18 anos eu estivesse apta para decidir as coisas - ou como se até lá, eu não tivesse o direito a ser um ser sexual, ao mesmo tempo em que sexualizava constantemente a mim e minhas amigas por sermos adolescentes.

Na época eu me enchia de correntes, de roupas pretas, de qualquer recurso visual para parecer um pouco mais agressiva e me sentir representada por fora pelo o que eu era por dentro. A fragilidade com que me tratavam sem tal indumentária chegava a ser desrespeitosa. Como se eu fosse algum tipo de incapaz.

Na época isso tudo não era tão consciente quanto é hoje. Mas estava lá, no mesmo jeito. Me triturando o peito e apertando os quadris. E antes fosse num espartilho, mas era num uniforme de escola mesmo. Feio, padronizante, broxante e monótono - e não impedia EM NADA que levássemos cantadas na rua.

Qual é o espaço que nossas adolescentes têm hoje em dia para buscar orientação ou vivência da própria sexualidade?
Será que alguma coisa mudou?

Quando o impensável, o condenável, o monstruoso acontece: uma fêmea humana com menos de 18 anos começa a 'uivar para a Lua Cheia', quais as opções que ela tem?
E a fêmea que é mãe dessa outra jovem fêmea e percebe os sinais? Em que situação está essa mãe?

O que seria de nossa sociedade se celebrássemos a menstruação e a sexualidade das nossas fêmeas de maneira segura, respeitosa, festiva e amorosa - independente da idade em que aconteçam?
Que profunda transformação não poderíamos semear?

Se criássemos mulheres que apropriam do próprio corpo, que tomam as rédeas do próprio prazer e da própria liberdade - desde sempre - e isso fosse o ponto de partida da vida delas, e não o de chegada?

10.31.2016

Será que a gente vai se tornando parecido com quem trocamos Amor [talvez por existir muita troca energética]...

...ou é o Amor que, através das pessoas, nos conscientiza aquilo que nós sempre fomos?

Mistérios.

O que sei é que me tornei um pouco de todos que amo e amei.
E esse caleidoscópio
meio cubista
meio erótico
me realiza

E me poetiza.
<3

Não estranho
Não ser reconhecida
A cada amor que chega
O caleidoscópio atualiza

Agora mesmo
Já não sou mais a mesma
Da moça que começou a Poesia

Amei o Sol na janela
Amei a música que ouvia
E amei o sentir
Desse Amor que sentia

Quando é Espelho na frente de Espelho
Nem sempre o reflexo
Nem nexo

Minha vida quando simétrica
tem sido assim:
mundo afora
várias mandalas de mim

Quando assimétrica
fico meio caos
perco a métrica
e a vida concreta
parece psicodélica

E assim eu vou
me dissolvendo
no Amor
em suas tramas
teias
e venenos

Ora reta
Ora curva
Ora vestida
Ora nua
Ora madura
Ora crua

Até que chegue minha Hora.

10.28.2016

Minha Bruxa usa alguns colares de caveiras.
Cada caveira uma vida passada
Um mantra
Um nome
Uma paixão
Uma professora
Uma aluna
Uma filha
Uma ancestral
Uma amiga

Que diferença há entre
o crânio revestido de rosto
e os crânios nus?


...apenas um hiato de tempo
e o toque amoroso das mãos que lhes fizeram colar.


Vai ver a cabeça que cria colares de crânios
quer desafiar a Degoladora
para ter a honra de ser colar também.
- Satya Nateshwari Devi

10.06.2016

Descobri no Tabu, um Lar Descobri no Amor, um refúgio Descobri na fé, um alívio Descobri na luta, uma disciplina E no gozo, a Liberação O que é meu não me pertence Mas eu que pertenço a esse chão Ao céu, às chamas e às águas O que eu toco, não simplesmente toco Sou tocada também Nada me define Me limita Me aprisiona Não há o que defender Que mereça ser defendido Pois o que mereceria defesa, não é perecível O que é Eterno é apenas Sentível A cada Um A cada Uma E a cada Om Intransferível

9.19.2016


Ela tem sua própria forma de apresentar-se
Quando chega o Tempo,
No lugar do Onde,
Iluminada pela Sabedoria
De todos os yogues e tantrikas

A Luz coagula e se concentra
no pseudo-soma rubro da videira
Gera a sagrada faísca...
...E Fogo!

Incinerando constante
O medo ignorante

É Sol de Shakti nas águas da madrugada
A verdade abre suas pétalas ao céu
Lótus rendido à Lua Cheia de Shiva
Que dança seus ciclos vertiginosos
Sobre os caleidoscópios de devotos
Agora,

 andrógenos


- Satya Devi 

9.12.2016

À minha cabeça não couberam auréolas angelicais
Nem coroas de ouro, nem aura de luz transcendentais
Couberam-me chifres
Galhudos e espaçosos chifres
Orgulho pagão de ser livre

Símbolo ancestal de fertilidade
Força e virilidade
Hoje em dia, nas Fêmeas
Tão raros, como se fossem novidade

Sobreviventes das fogueiras
Herdeiras das donas do caldeirão
Netas das Velhas Tecelãs
Guardiãs da sacralidade da paixão

Meus chifres são resistência
De uma linhagem que não resistiu
Ao colorido pleno da Existência
E teima em ser plenitude nesse mundo doentio

- Satya Devi

8.31.2016

Oração Não-Dualista

Ave Profana Maria
Padilha
Guiai-nos nesta noite!
Santa Vadia
Protejei-nos de toda ignorância
Com teu manto de acolhimento
Tu que és o Útero Cósmico
Em que cabem todos os prazeres
E todos os sofrimentos
Lar primeiro e último de todo o Universo
Todos os Multi Versos
Infinitos
E mais além,
No Tempo,
No Além-Tempo,
E no Não-Tempo,
Teu Templo
Escuro
e Úmido
Recorda-nos de Ser como vós
Que a nada rejeita
Que a nada repele
E a tudo acolhe, equânime
Que o sofrimento, e a alegria
O sorriso e a lágrima
Sejam igualmente acolhidos
Na pureza do Coração
Até que a eliminação de toda resistência
Seja nosso anti-escudo - inviolável e puro
Que nós possamos desvendar os teus segredos
Que a Tudo abraça
Que a Tudo acolhe
Em que Tudo cabe
E mais além, Kali
E que não se cale de mim
A tua Justiça verdadeira
O teu perfeito discernimento certeiro
A tua Sabedoria e o teu Conhecimento
Que possam todos os seres experimentar
Da alegria de ao menos um segundo
Estarem conscientes da tua energia
Da tua Plenitude
Na noite, e no Dia
No Sol e na Lua
Na Estrela e na Escuridão
Todos os pares de opostos complementares
São meros brinquedos em tudas mãos
Leques e véus, acessórios
de tua Divina Dança Cósmica
Ó Senhora dos Mistérios
Ó Aquela que Tudo acolhe
Tanto a Vida
Quanto a Morte
E que nós possamos reconhecer a Tua Divina Face
Em todos os teus disfarces
Nesta ilusão de que somos apenas a Parte,
Sendo o Todo, em Verdade.
OM
Uma
Párvati
Tara
Kali
Maria
Mataji
Madre
Tantos nomes recebestes
Tantos nomes ainda receberá
E Um por Um eu os entoarei
Até sejam eles a me entoar
Om Shanti Shanti Shanti Om
- Satya Devi

8.23.2016

O Papel da Amante


Não tem cineminha.
Não tem mãozinha dada no shopping.
Não tem 'apresentar pra família'
Não tem fotinho de casal no Facebook.
Não tem direito social a crise de ciúmes
Não dá pra ficar pro almoço
Se engravidar, é aborto.

O tempo disponível é o tempo roubado
O lugar disponível é o lugar secreto
Do Mistério
Do imprevisível

Adrenalina
Serotonina
Mas não muita Oxitocina

A furtividade é a beleza e o incômodo
O desejo é a separação e é o encontro

O papel da Amante
É tão arquetípico quanto o da Esposa
Tem sua Luz
Tem sua Sombra
Tem sua Dor
Tem seu Prazer
E é o que é
Nada mais
Nada menos

Tantas de nós já encarnamos esse arquétipo
Essa máscara por debaixo da máscara
Em tantas ocasiões diferentes
E encarnaremos ainda muito mais vezes

Amor é coisa que não se mede
Sexo é coisa que não se reprime
Nada disso é coisa que se controla

O que separa A Esposa de A Amante
é função em sociedade patriarcal
é pura ilusão em missa dominical
Todas nós, quando nuas,
Somos as duas
Somos parceira leal e somos putas
Independente de status conjugal
Independente de nossas negações
Independente de nossas frustrações

Espiritualmente
somos todas iguais
em nossa Divindade
em nossa Profanidade
E nossa Dor
E em nossa Alegria
Em nosso orgulho
e em nossa des-importância

Quem me dera um mundo
Em que Amante e Esposa
Se reconhecessem uma na outra
E se amassem em perfeita cumplicadade

Como irmãs
Como lésbicas
Ou como conspiradoras
De uma mesma rebelião matriarcal
Fêmea
Fatal
e Furiosa

Que fizessem dos esposos
com os chifres à mostra
Devotos sinceros
de nossa multiplicidade

Tu que hoje está Esposa
Quanto da Amante rejeita em Ti?
Tu que hoje está Amante
Quando da Esposa rejeita em Ti?

Tiremos o falo do centro
E fujamos nós, fêmeas,
Amor - e Mistério - adentro!

 - Satya Devi

7.09.2016

...e às 'Ordens' espirituais distintas: a Desordem.
 
Kali te ama.
Beijos de Escuridão.

6.16.2016

Eu não tenho 'uma vida paralela'
Eu tenho multiplas.
Eu sou muitas.
Eu sou uma multidão
E mesmo assim,
não sou nada disso.
O Ser é assim mesmo
Indefinível.
E por mais que tente
Jamais poderá ser definitivo
Talvez, possa até estar definido,
mas é impossível,
por definição,
Ser
definitivo
Pois, sendo Infinito,
o Ser
sempre está
no Infinitivo.

5.12.2016

E então?

Vou orar por proteção?
Proteção de quê?
De um corpo que não escapará da morte?

Orar por uma boa morte
parece escolha tão sábia
quanto orar uma boa vida

O que vou pedir aos Deuses?
Se tudo está ruindo,
Se tudo está desmoronando,
E é inevitável que desmorone,
Quem sou eu para pedir que meu castelo de areia continue em seu devido lugar?

Livrai-me da doença
Da vida pela metade
Livrai-me da morte inconclusa

Preenchei-me de sabedoria
Que meus sentidos estejam limpos
Que meus olhos enxerguem com clareza
Que meus ouvidos ouçam com nitidez
Que minha fala seja clara e lúcida
Que meu toque seja efetivo

Para que assim,
Eu perceba minhas batalhas
Que eu tenha a estratégia sábia

Mas acima de tudo,
Que eu me lembre
Sempre
Do que Eu Sou



4.28.2016



Ela dança
chore ou ria
Ela dança
ache isto ou aquilo
Ela dança
observador ou observado
Ela dança
na dor ou no prazer
Ela dança
orando ou sem orar
Ela dança
tenha medo ou tenha coragem
Ela dança
degolando ou parindo
Ela dança
Lua Cheia Lua Nova
Ela dança
ache lindo ache horrível
Ela dança
pense ou sinta
Ela dança
perceba ou ignore
Ela dança
lembre ou esqueça
Ela dança
no girar da Roda do Dharma
Ela dança
ou ápice da ignorância
Ela dança
Verão ou Inverno
Ela dança
tenha saudades ou tenha medo
Ela dança
tenha fé ou tenha descrença
Ela dança
pessimismo ou otimismo
Ela dança
desespero ou êxtase
Ela dança
Com você
Ela dança
Ou apesar de você
Ela dança

3.10.2016

"Não vistes as nuvens no céu, Jeremias?
São sensuais como as curvas do corpo humano.
Por que seria errado uma nuvem dançar molhada e lânguida?
Por que seria errado uma mulher dançar molhada e lânguida?
Ambas anunciam o jorrar da vida
Implacável, crônica e aguda
Sobre nossos jardins já tão podados
Secos, explorados e abandonados"


- Satya Devi
em oníricos delírios
Quem há de levantar a voz
no meio do coro de gemidos
do mar de corpos
ungidos
pelo mel e leite
que lhe são inerentes?

E dizer
Qual prazer
é certo
qual é incerto
qual é errado
qual é pecado
qual é obrigatório

Quem quer que
ocupe sua boca
com palavras ocas
sobre o que um Ser
deve ser livre para fazer

Tem a boca desocupada
E portanto não sabe nada
Sobre o verdadeiro prazer
Ou sobre a initimidade do Ser
E por não conhecer o que diz
Como pode saber a verdade?

E se soubesse
O que garante que
A verdade é a mesma prece
para tantos corpos diferentes?

Somos todos mortais
Há lendas que dizem
que nem mesmo Deuses
são imortais

Quão enorme
é a arrogância
de interromper
beijos apaixonados
para julgar os toques
e dizer quais os apropriados!

Qual doença
que se abateu neste
que possui tão forte crença?

Ó divino coro de súplicas e gemidos
A estas vozes arrogantes, não deem ouvidos
Riam-se delas como uma criança ri de si mesma
E continuem sempre plenas
O que a Divina Criança inventou
nessas corporais brincadeiras

Aqui onde os samadhis são sorrisos
Aqui onde os toques são kripas
Aqui onde Amor é olhar
Aqui onde corpo é altar
E Deus será desnecessário

Quando a comunhão completa for um fato
Em cada corpo que cada corpo alcançar

- Satya Devi

3.06.2016

Sobre a Paz de Ser consigo mesma

Existe um treino, um cultivo, uma disciplina
De focalizar unidirecionalmente a atenção
Em direção ao centro do self

Esta essência não é nem fria, nem quente
Nem pesada, nem leve
Nem grande, nem pequena
Nem acima, nem abaixo
Mas dentro
Profundamente dentro
Dentro do dentro do dentro de dentro de nós

E quando estamos prestando atenção a ela
Em verdade, nos vemos - e enxergamos.
E uma grande pacificação se instala

Com o treino
com o tempo
Aprenderemos a Ser
Independente do Estar
Importará cada vez menos o tempo
Cada vez menos o lugar
E o que está ao nosso redor

E mais se conseguimos lembrar de voltar
A esse não-lugar
Onde a contemplação se dissolve na contemplação de si mesma
Como dois espelhos colocados um na frente do outro
Refletem o Infinito

E a todos os momentos de nossos dias
Plenos de prazer e de dor
Cada vez mais fluirá essa Paz de se Ser consciente de si mesma
Que transbordará Amor sem causa e sem restrição

Faço dessa contemplação o meu Sadhana
Não para agradar a alguma força
Nem para gerar "bom karma"
Nem para "alcançar liberdade"

...Mas porque estou em profundo Amor.
Em silenciosa e ardente Paixão.
Como um fogo gélido
Que dissolve todo o Universo.

- Satya Devi

2.20.2016

CONTO IN-ESPERADO DE UMA SEXTA À NOITE



Há quatro dias atrás, foi o primeiro dia de Lua Vermelha.
No dia antes de ontem, foi o dia do fogo que queima o crânio
No dia de ontem, foi o dia da purificação que lava o tronco
E hoje foi, em Verdade, um novo dia.

Comecei o novo dia limpando a casa
Coloquei as coisas no lugar
Abri espaço, limpei o chão com água
Deixei o ar entrar

Hoje eu cuidei do corpo
Hidratei os cabelos
Tomei um banho
Cuidei dos pêlos

E então me alimentei
Liguei a uma amada amiga
E me confessei
E ouvi suas confissões

Não foi preciso absolver ou perdoar
Nem punir, nem premiar
Naquele espaço-tempo,
Não coube, se quer, o julgar.

E lá estava eu, toda pronta
Toda linda, toda solta,
Pra alguma coisa que eu não dizia
E minha mente fazia de conta que não sabia

E quando entediei-me da vida
Deitei-me na cama, convencida,
De que já se acabava o dia
Que havia acabado de começar

Estiquei o braço, despretenciosa
Alcancei o livro certo, na hora certa
E lá estava Ela, toda aberta
Esperando por mim, toda esbelta

E as linhas foram traduzidas
E o silêncio se fez canção
E as canções se fizeram rimas
Quando Ela tocou meu coração

E onde havia morte
Agora há vida
E onde havia seca
Agora há fonte

Onde havia dúvida
Agora há silêncio
Onde havia pergunta
Agora há sentimento

Então eu soube, como se lembrasse
Que já sabia que A encontraria, se aproveitasse
O sutil chamado irresistível em seu canto
Que atrai ouvintes, em silencio e pranto

Ao seu inevitável encontro
E eu nem se quer me espanto
Apenas me permito, em assombro,
Reconhecer-Te nas linhas do (in)esperado conto

Devi armou-me uma armadilha
E eu, sem vergonha, caí aturdida
No instante do susto, quando a mente se trincou
Veio Devi pelas águas, e a mim, transbordou.

- Satya Devi

2.16.2016

Talvez
ao longo do tempo
o Yoga mude de cores pra cada praticante

Mude de forma
Mude de perspectiva
Mudem os sentimentos

Hoje em dia meu Yoga é mais cinza
é mais preto no branco
É menos cheio de arabescos e retorcimentos
E mais cru

O Yoga me fez entender que eu precisava lidar com o amargo da vida.
Aí eu lidei, como pude, como deu.
E agora,
o próprio Yoga me parece menos doce.

Toda a vida mudou de perspectiva
Mudou de forma
Mudou de sentimentos

Por que o Yoga continuaria o mesmo?

Apegue-se à sua noção atual sobre espiritualidade,
E estará condenando-se ao conflito
Arriscando afastar-se da própria espiritualidade.

Talvez
Nossa noção sobre espiritualidade
Seja como máscara do Inominável

É só a forma como o Absoluto se (a)presenta.

Um dia a máscara e o Absoluto se separarão.
Apegar-se à mascara é negar o que ela tem a ensinar.

Mas haverá um jeito de diferenciar:
Uma força será relativa, efêmera e dual
A outra, será absoluta, eterna e indescritível.

Maya é nossa amiga.
Se tivéssemos que contemplar a nudez do Absoluto o tempo todo
Transbordaríamos de dor e êxtase simultaneamente
Nascíaramos, pariríamos e morreríamos simultateamente
O tempo todo
Eternamente

A loucura sempre dança de mãos dadas
Com os que dançam junto ao Véu de Maya

Não, não seríamos capazes de suportar a nudez de Deus
Não o tempo todo
Talvez, de vez em quando,
Para que nos recordemos.

Não com este corpo
Não com este cérebro
Não com este estilo de vida

É por isso que os yogues falam em mutação.
É preciso um novo cérebro
Uma nova mente
Capaz de lidar com o Absoluto de forma mais íntima

Se não capaz de vê-Lo
Que seja capaz de sentí-Lo
Capaz de estar cônscio da Unidade
Capaz de ser dentro
e fora
ao mesmo tempo

Fico aqui pensando
Talvez seja esta a saída deste labirinto
Compreender que o Absoluto esteve se apresentando pra mim
Com cada vez menos máscaras
Cada vez mais transparente
E eu não tenho deixado de percebê-lo.