12.23.2015

[...questionamentos casuais de mais um pré-Natal...]

Sim, eu reverencio as faces femininas do Divino.
Mas eu não sou conivente com a noção de 'feminilidade' imposta pelo patriarcado.
No meu altar não coube um Feminino obediente, socialmente ajustado, politicamente alienado, ou economicamente dependente.
Sem questionar o que entendemos por "Feminino" teremos uma visão superficial, distorcida e maculada do Sagrado.

Ao invés de deixar que nossas noções culturais tão asquerosas sobre o que é "feminino" se projetem no Sagrado, façamos o contrário.

Deixemos que a energia feminina primordial pura se revele para nós, em nosso íntimo, de dentro pra fora. E a partir disso contemplar essa essência e qual o tamanho da distorção que a cultura impõe.

E pode ser que nada venha.
Pode ser que não exista, em essência, em pureza, em verdade, algo que se possa chamar de "Sagrado Feminino" - e isso seja tudo mera construção social na nossa psique.
Estamos preparadas pra isso?

Ou pode ser que esse "Sagrado Feminino" tenha muito pouco de "virgem" e muito de "Maria". Essas que a gente encontra por aí, todo dia... Que Ela esteja em formas comuns, que seja tão perfeita que, em nossa ignorâncias, julguemos-a imperfeita. Que seja moralmente questionável ou socialmente condenável.
Estamos preparadas pra isso?

Ou pode ser o contrário também. Algo tão belo e arrebatador que tudo que vier depois de tão Visão seja completamente sem brilho, sem cor, sem sabor - não fosse por uma sutil sensação de que por detrás das aparências, é Ela que está ali. E passemos o resto da vida nos dedicando às Artes para afastar a loucura e tentar desesperadamente expressar tamanha Beleza - sem nunca conseguirmos chegar nem aos pés do que sentimos.
Estamos preparadas pra isso?

E pode ser ainda pior: que ela dê sinais de que existe de fato, mas decida nunca se revelar por completo. E não haver disciplina espiritual que a convença. Não quer, e pronto.
Estamos preparadas pra isso?

Estamos - verdadeiramente - preparadas para Ela?

12.22.2015




















Tem alguma coisa de profundamente pacífico
dentro do estômago da Furiosa

Enquanto Ela me digere
Eu me rendo

Rendo Poesia
ainda que crônica.
Rendo em Amor
ainda em chamas
Rendo em Gratidão
ainda que em dor

E conforme Ela me revira
Me despeça, me alucina
Eu me encontro
Em mim mesma

Sou eu que me fundo a Ela?
Ou Ela que desabrocha em mim?

Impossível saber

Mas... Ah...
Essa Paz
Esse Silêncio
Me tomam
Me arrebatam
Me trans formam
Me trans bordam
Me São

12.11.2015

Diálogos imaginários:

- Hã?! Onde eu tô?!
- Olá, bem-vindo ao seu karma.
- TAQUEOPARIU QUE SUUUSSTOO!!!! Quem é você?!
- Kali Devi, o prazer é todo seu.
- O que aconteceu?
- Você morreu.
- ...
- Já era tempo, né?
- Mas não era pra ter um julgamento, etc?
- Ah, é isso que falaram pra você? Tadinho. Erraram a lenda. Na verdade, é comigo.
- E agora?
- HE HE HE.

Cabeças rolando ao chão

*repeat por 5000 anos*

12.04.2015



Sou uma praticante de liberdade radical.
Eis aqui minha lei, meu caminho
Minha bênção e meus caos.
Mas, por favor, não me entenda mal
Ainda que Liberdade seja suprema manifestação do Amor
Ao romper das grades, mesmo sorrindo, ainda choro de dor
- Satya Devi

11.25.2015

Pouco me interessa, pouco me cala
essa espiritualidade seca e castrada
Meu sangue é vinho, o coração é videira
Florescem e brotam da Fonte Primeira
Minha vigília, lúcida e comportada
é mera embriaguez divina disfarçada
Em minha quase dual realidadelírio
Percebo a Unidade a cada suspiro
É-me erótica a dança das galáxias
É-me caótica a humana desgraça
Escrevo para os que fazem coro comigo
Leio os que pulsam do mesmo vinho que vivo
Tu que [em Verdade] me lês, e co-sente deste enredo
Expressa tua Alma - cultiva este segredo!
- Satya Devi

11.17.2015

Exorciza de mim
Da espera desesperançosa
Da princesa no castelo
Do príncipe moralmente correto
Da morte da mulher poderosa
Dos contos de fadas decrépitos
Quero apenas os atores.
Dar-lhes rumo incerto
Fazendo de cada um deles, autores
E verei-os voltar
e verei-os cair
Na realidade
À parte
Do final (in)feliz
Vazio e ridículo
Ao não-final
Imprevisível

- Satya Devi

Prefiro poemas eróticos a nudes.
Anais Nin a Morgana Dark.
Chocolate amargo a chantilly.
Vinho seco a champagne

Pelos a pele.
Lágrimas a botox
Xingamentos a mentiras
Silêncio a conversas vazias

Poupem-me
Dos gemidos forçados
Das histórias mal-contadas
Das palavras não-faladas
Dos contos de fadas furados

A vida-morte
real
pulsante
natural
nua
e crua
e cruel

é a maior zona

erógena

do existir.

- Satya Devi

11.16.2015

Tem uma solidão
que nunca vai embora
- do lado de fora

Tem uma presença
sutil e vaga como o vento
- do lado de dentro


 E entre elas,
me perco
me encontro
eu canto
eu conto

Histórias para me distrair
Em meio ao caótico
Precisando, mas negando,
tudo aquilo que é lógico

 Fazer-me esquecer
Fazer-me lembrar
que o lugar de Ser
não é o lugar de Estar

Mas para a solidão
eu sempre volto
Coração na mão
Alma em terremoto

Ora em oração
Ora em protesto
Ora em canção
Ora em remédio

Volto à solidão
Mesmo nos braços do Amado
Algo em mim
não pode ser tocado

A não ser por Mim
- e talvez, nem assim.

Vazio que preenche
Cada espaço
que antes
não havia

Consciência que enche
Cada vácuo
que antes
não existia

E, de repente, por milagre,
Percebo nesse infinito vácuo
O mais secreto abraço
do Amado.
- Satya Devi

11.14.2015

Um povo que mata rios...
...mas se pensa superior a todos os outros povos.
A todas as outras espécies.

Um povo que mata suas mulheres...
...mas se pensa muito ético ao proibir aborto
E a defender os próprios "valores".

Um povo que pratica genocídios diversos...
...Mas acha que lugar de 'ladrão' é na cadeia
E que cadeia não é SPA pra que se pense em "Direitos Humanos"

Mas o que realmente importa
É o próximo capítulo da novela das oito
A cotação do dólar nessa semana
O que está escrito na Bíblia
e a crise econômica.

O resto,
são calamidades pontuais...
são tragédias eventuais...
Acidentes industriais...
...que a tecnologia e o capital
(Talvez, um dia)
Hão de superar!

Ou mesmo,
Nas entrelinhas,
Castigo de Deus
E Deus, é claro,
Sabe o que faz.

E seja feita a nossa vontade
Disfarçada de autoridade universal
Desça o nosso cacetete
Como bênçãos dos céus
Enriquem seus 'representantes',
Como os 'Seus escolhidos'

Veja!
Como o dinheiro,
ops, quero dizer,
A Fé move montanhas realmente!

Montanhas de lama
sobre a cidade de Mariana.
Montanhas de soja e cana
sobre terras indígenas
Montanhas de porrada
Nas mulheres, dentro de casa.

Assim na Terra
Como no Céu

Aleluia, irmão!
(Irmão homem, branco, cis, hétero e rico, que fique claro)
Aleluia!


- Satya Devi

11.09.2015

Ao longo dessa vida tive a honra e o prazer de conhecer mulheres muito especiais... Mulheres no ápice do erradiar da própria essência...

Estar perto delas era como estar diante de Entidades.

Algumas delas, tinham selváticos cabelos afro, curvas de se encher a boca d'água, e o andar de quem sabe que não deve nada para ninguém.

Outras tinham oblíquos olhos de cigana dissimulada, e tocavam castanholas como quem estala os dedos, e giravam saias como quem não se importa com o tempo ou espaço...

Conheci também aquela que tinha nos olhos de criança toda a sabedoria do mundo. E inventava asas de fada quando corria pelos salões. Como quem soubesse que a vida é curta demais para se passar sem fantasia...

Conheci bruxas que poderiam ter saído diretamente de Avalon. Com longos cabelos ondulados, longuilíneas e pálidas, como elfas que brincam entre os humanos...

Conheci especialistas em sedução. Mestras no Erótico, no sacro-profano, na Arte do Êxtase. Faziam de cada movimento, uma dança. E de cada dança, uma bênção - ou maldição. Dependia tudo do olhar de quem olhava.

Conheci Amazonas de quase 2 metros de altura (ou ao menos assim pareciam), peito aberto e olhar arisco. Braços grossos e pés do chão. Sabiam muito bem reconhecer e anular seus inimigos - que surgiam de todos os lados, a todo momento.

Essas mulheres faziam de sua aparência o seu sinal. Sua marca. Sua mensagem. Sua essência.

Faziam de suas palavras, seu legado.
De sua Arte, seu recado.
De suas vidas, um serviço grato aos daqui e aos de Lá.

Essas mulheres não vieram no mundo à passeio.

Essas mulheres não estão aqui para servir ninguém - a não ao próprio Propósito que as impele a continuar respirando. Que não nem nome, nem forma, nem palavra que alcance. Mas que lhes é tão real quanto o bater dos próprios corações.

Essas mulheres estão em todos os lugares.

Aqui.. Ali...
Do lado de cá...
Do lado de Lá...

São médicas, gerentes de banco, dançarinas, poetisas, faxineiras, frentistas, putas, meditadoras, pedreiras, lavadeiras...

Podemos nos deparar com elas dentro de um ônibus, ou num altar de um templo... Em cima de um palco ou de um palanque...

Aí... Fico pensando...
Essas mulheres-entidade.. Essas Deusas...

...E se a Mãe África, poderosa em seu rebolado, tivesse realmente acreditado que seu black power era "feio" ?
...E se a cigana tivesse realmente acreditado que suas saias eram "inapropriadas para a ocasião" ?
...E se a Amazona tivesse realmente acreditado que luta é "coisa de homem"?
...Ou a elfa que sua magreza era "broxante" e que ela deveria colocar silicone nos seios?
...E a mestra da sedução tivesse realmente acreditado que "a culpa era dela" de ter usado aquelas roupas quando aquele desconhecido lhe passou a mão?
...Ou que "asas imaginárias de fada" eram ridículas e inapropriadas para uma mulher madura?

O que seria delas...?

E o que seria DE NÓS sem ESSES SERES nos inspirando assombro e fascínio simultâneos?

E a cientista não estudaria - seria analfabeta.
E a Mãe África não se libertaria - seria escrava.
E a cigana não dançaria - seria casada.
E a Amazona não lutaria - seria humilhada.
E a bruxa-elfa não faria bruxarias - seria ridicularizada.
E a fada não encantaria - seria amputada de suas asas.

E nós...

...não teríamos nem cientista
...nem Mãe África cantando
...nem dança cigana
...nem poesia
...nem vitória em batalha
...nem bruxarias e curanderias
...nem encanto

E nossa vida seria assim...
...um grande e épico desperdício de Almas.

Essas mulheres
São todas as mulheres
Que não acreditaram nos outros
Mais do que em Si Mesmas.

Que a pele da Mãe África brilhe livre ao Sol!
Que a cigana rode suas saias vermelhas!
Que a menina vista suas asas de fada!
Que a bruxa acenda seu caldeirão!
Que a amazona empunhe suas armas!
Que a poetisa poetise!
Que a sedutora passe seu batom vermelho!
Que a elfa brinque conosco!

Que cada mulher...
Só seja
O que Já É!

- Satya Devi

10.26.2015

Solidão é coisa que se conquista.
E há um preço a se pagar.
"Cada escolha, uma renúncia."

Tem essa pessoa na minha vida agora...
Tão sólida e visível quanto fumaça
Vem, queimando,
e desaparece diante de mim

Mas sua fragrância fica.
Nos móveis
Nas cortinas
Na minha pele

Eu a encontro quando olho pela janela, contemplativa
Quando os móveis da casa encontram seus lugares
Quando no fim de noite, não há braços em que se deitar
Quando na manhã seguinte, apenas o Sol sorri pra mim

É nesse vácuo de mim
Que ela aparece
me conhece
me olha nos olhos
me reconhece
me amanhece
me anoitece

E ela sempre estará lá
Sempre estará aqui
E tenho certeza, porque...
Enquanto eu estiver,
Eu estarei.

Ela é seca como o vento
Aquece como chama
Real como a terra
Ela é Aquela que Ama.

Romantismos a parte
Bem sei dos espinhos que me cabem
Dos abraços frustrados
Dos beijos não dados
E da vida não vivida

Sim, de tudo isso sabemos
E nada disso negamos
Mas tem algo aqui...
...mais lúcido do que antes.

Mais vívido
Mais em chamas

Das ausências que me cabem,
Eu me dilato.
Da presença que me cabe
Eu me parto
Em uma só

Só mais uma
Só, mais uma.

Eu me espanto com essa mulher que surge
De repente me deparo com ela
Na sala, na cozinha, no quarto
Na rua, na mata, no carro
Ela simplesmente vem.

...como se sempre estivesse estado
E parte como se nunca tivesse partido.

Eu me assusto.
Eu me temo.
Eu me apavoro
De mim

Por quanto tempo...
Eu fugi dessa mulher?
Por quanto tempo...
...eu fugi de mim?

Ninguém sabe do que ela é capaz.
Ninguém sabe do que não é.
Nem mesmo eu
E por isso temo

Mas recebo
Porque é isso que faço
Eu só canalizo
Eu só dilato

E permito-me porque re-conheço-me.

Porque preciso dela pra sobreviver
E ela precisa de mim pra existir

É como um espelho na frente do outro
Quando se sente a própria presença
É como vazio
É vertiginoso

E a gente parece que quer chorar
Só que não
E a gente parece que quer celebrar
Só que não

E tudo que resta
É reverência
É assombro
E gratidão

Algo está finalmente
Chegando no devido lugar
Alívio
Doído
Sem tempo
nem lugar

- Satya Devi

10.17.2015



Falam de 'despertar da consciência'...
Soa tão sutil e suave...

Não mencionaram
Os músculos que quase rasgaram
Os ossos que quase quebraram
Conforme o corpo espreguiçava-se
No mesmo leito em que foi sepultado

O corpo está preso,
sepultado e enterrado

A alma está vadia
perdida e em pedaços

E é preciso juntar tudo
É preciso chutar tudo
É preciso gritar
É preciso rezar

Os horizontes abrem seus olhos
E dele se levanta uma Deusa
Tão grande quanto o Céu

Todos os meus pedaços
Olham para Ela e para Ela fluem

A Alma que estava perdida
Está agora rendida
O corpo que estava enterrado
Vira fera, cava a terra
E agora está libertado

E em seus braços,
Meus seis pedaços
envolvem-se em seu abraço
E se fizeram Uma
Múltiplas
Única

E assim como veio
Assim Ela se vai...
E sei que é inútil tentar agarrá-la
Pois ela me escapa pelos dedos

Nada está pronto
Acabo de nascer
Este é só o começo
De tudo que ainda há pra se vencer...

Jaya Skandamata!

10.10.2015

Prece dos Libertários

PRECE DOS LIBERTÁRIOS
Que nada me coloque coleiras ou correntes
Nem a riqueza, nem pobreza
Nem homem, nem mulher
Nem ideologia, nem desesperança


Nem mesmo a esperança me coloque vendas
Nem mesmo a desilusão me coloque barreiras
Nem mesmo a ilusão me coloque algemas
Nem mesmo a utopia faça com que eu me esqueça

Que não me coloque dentro de grades
Nem o hoje, nem o amanhã
Nem o passado, nem o agora
Nem os sonhos que não vivi
Nem os pesadelos dos quais não acordei

Que nem mesmo os sonhos me entorpeçam
Que nem mesmo as verdades me "engrandeçam"
Que nem mesmo as mentiras me diminuam
Que nem mesmo a realidade me emudeça!

Que não me limite nem escravize
Nem a loucura, nem a sanidade

Nem mesmo a sabedoria, ou ignorância
Nem mesmo a virtude, nem os vícios
Nem mesmo meus acertos me enobreçam
Nem mesmo meus erros me humilhem

Que nem se quer o medo me arrie!
E que não me escravize
Nem repressão
E nem fetiche
Nem heróismo, nem crime

E que não me prendam, não:
Nem companhia, nem solidão
Nem mente, nem coração
Nem cérebro, nem razão
Nem corpo...
...nem Alma
Me limitem.

Que eu viva em êxtase de Liberdade
Além de maldade, ou bondade
De depreciação ou vaidade
De forma que nem mesmo as grades
Sejam proibidas para mim
De forma que nem mesmo algemas, correntes ou vendas
Estejam além do meu alcance!

Mas que eu desfrute de Tudo e de Nada
Noite após Dia, conforme meu próprio Karma
Conforme der, conforme o Dharma
Em Nirvana e em Samsara

E que nunca se sacie em mim
A sede de Mim Mesma
E que desse mar de sede floresça
A jóia secreta daquelas que são amantes de si mesmas:
A genuína Compaixão.

E que nunca se aplaque de mim
o desejo de Consciência!
E a consciência do Desejo!
Em Liberdade
De si mesmos

Hari Om Shanti Shanti Shanti Om

- Satya Devi

10.07.2015

Minhas 'ruindades' eu faço com elegância: sem fazer mal a ninguém.
Assim como um bom espadachim
só acerta onde quer acertar,
assim são minhas malvadezas:
Precisas!


E é bom ir treinando:
A sombra é inevitável,
Já a esbórnia de iniciante,
É desnecessária.
- salvo em raras exceções
de ruindades sócio-passionais.

Para esses casos,
chame logo uma especialista
Negra, linda
E com oito braços
Armados
e de crânios pendurados
em seu pescoço irado

[Ela mesma fez questão
De não deixar uma única gota
Cair por acidente no chão]

Mas não sendo o caso,
Aos demoninhos
[esses bastardos filhos]
Que habitam em nós,
eu, humildemente, sugiro:
Treinem mais!
Acertem o alvo
Apenas o alvo
...e nada mais.

E ao acabar seus crimes tenham a elegância
De limpar bem o chão
E lavar as mãos
Antes de se sentar à mesa
Ou acender sua piteira francesa.

Treine sim sua safadeza
mas evite deixar sujeira
Ou você pensa que foi coisa de 'anjo'
A invenção da "etiqueta"?

- Satya Devi, sobre Lua em Escorpião e Marte em Virgem.

10.04.2015

Quando aparece assim,
todo explícito de Primavera,
já sei bem o que quer de mim...

... E já não ofereço resistência.
Mas sim uma implícita saudade.
E um medo de que me fujas
Antes que Beltaine acabe


9.30.2015

Sonhando com Satya Devi

Era uma grande cama de uns 4 metros de largura. Várias pessoas, aninhadas como filhotes de gato assistiam uma 'aula'.

Um quadro negro numa parede. Um professor e uma professora, de jalecos brancos, nos ensinavam a "reprogramar nossas mentes e energias para atrair alegria e prazer". Mas para isso precisaríamos parar de trocar massagens, risadas e piadas para "prestar atenção na aula".

Olhei pra lousa e assisti os 5 primeiros minutos de introdução. Então disse:

- Entendo a proposta de vocês mas não concordo.

Os professores, escandalizados com a minha interrupção, perguntaram:

- Por quê?!

- Porque essa proposta parece-me uma reprogramação vazia. O que garante que, em algum lugar, nossas Almas não continuam sentindo tristeza e dor, porém 'anestesiadas' por esse método?!

Enquanto dizia isso, saíam navalhas e aparelhos odontológicos da minha boca, que eu acabei cuspindo.
Tive que repetir algumas vezes até ser entendida.

Eles então responderam:

- Hmmm... Interessante... - e olharam para o quadro, pensativos.

- Então, otra coisa: se a gente pode 'reprogramar' nossa energia pra atrair coisas - disse eu cuspindo mais um tanto de plástico e metal - porque não atraímos alguma virtude? Eu pessoalmente atrairia outra coisa!

- Como o quê? O que pode ser melhor do que alegria e prazer?

- Verdade, por exemplo. Mas essa é uma escolha pessoal minha... Mas vamos ver aí esse método de vcs...

...e então distribuí minha atenção entre a cama de gato e os conhecimentos da lousa.

9.20.2015

Alguns passos difíceis, outros traumáticos, aventuras e desventuras no Samshara da vida...

Olho-me no espelho, descabelada e cansada, tendo a vida tomado um curso totalmente inesperado, e quando penso que essa mulher que vejo agora, que vive o que vive agora, já viveu também todas aquelas outras coisas que vieram antes e continua aqui, com o pulso pulsando, e a Arte fluindo, na melhor disposição possível pra encarar cada dia com verdade, com sensibilidade, inteligência e força... eu digo pra ela:

- Tu é clitoruda, ein, minina? Phodona vc, ein?

Ela dá uma jogadinha de cabelo, sem nem ruborizar e responde:

- Obrigada. Eu sei.

E assim, toda sem vergonha, rindo da minha perplexidade... Ela gargalha comigo.

E eu assim, toda sem jeito... me apaixono por ela. Imagino fascinada o que será essa mulher daqui 10, 20... 50 anos... Quero envelhecer com ela. Quero conhecer cada segredo seu. Penso até em casamento, mas respiro fundo e me contenho... Eu sei o quanto ela tem revirões no estômago com essa palavra.

E também... Não tenho certeza se sou párea pra ela...

...talvez seja simplesmente muita areia pro meu caminhãozinho.

Em mina inocência, só rezo para que ela nunca me deixe...
...e alguma coisa, quase racional, em mim me dá a certeza de que isso seria impossível de acontecer - mesmo que eu quisesse que acontecesse.

... E então me lembro que já quis.
Lembro das brigas, dos bate-bocas, das crises de ciúme... Ai que preguiça! Às vezes eu só queria um tempo! Umas semanas off de mim!
...Mas não consegui.

É.
Amor é coisa que se cultiva.
Por que com o Amor Próprio haveria de ser diferente?

...cultivemos!
Antes que se faça uma guerra do lado de dentro.

8.14.2015

Sem pena para meu papel

Chegou.
O que quer que seja chegou.

Há tanto a dizer, tanto a chorar, tanto a agradecer, tanto a calar...

O coração, exausto,
Não tem pena
para meu papel.

Que segue cada vez mais branco
Mais vazio
Mais pronto para qualquer coisa

O que quer que venha agora
É coisa que não sei

E quase não me resta se quer reação
Não fosse por esse sutil sussurro:
'...Cuida de você...'

Não disse 'cuida SÓ de você'
Nem 'cuida de você e fode com o resto todo'

Só disse '...cuida de você...'

Olho para minhas mãos
e percebo:
Essa voz tem razão.

To indo.

- Satya Devi

Furiosas

No Fim
do Fim
São 'só' Elas
Botando ordem na casa

Não sobrará ferida sobre ferida
Nem medo sobre medo
Nem segredo sobre segredo
Nem mesmo parede ou casa
sobrará.

E com um tanto de ferida
Com um tanto de medo
E mais um tanto de segredo
A gente aprende a olhar
Direto nos olhos dElas.
E do que vemos ali,
Calamos.

Não por medo
Nem por ferida
Nem por segredo
Mas por puro assombro.

Por algum tempo
É bom silenciar
Até que seus olhos
- janelas da Alma -
se recuperem da in-vasão
que elas nos impõem
quando nossas janelas
se fundem com as delas.

E depois que se vão
Deixando esse vazio criador
que só Elas sabem deixar
chegamos a nos perguntar
se foram Elas mesmo
que estiveram aqui...

Tudo que veio antes
parece um sonho qualquer
uma fantasia, uma vaga memória...
...Não fossem as ruínas
a fumaça,
o silêncio
e o sangue
que escorre pelas mãos
pelas pernas
e pela Terra

Um arrepio nos percorre a espinha.
Elas estiveram aqui
Não deixam vestígios
Não deixam marcas,
pegadas, assinaturas.

Mas nós sabemos.
Ah, sabemos...

E plenas de assombro,
e de Paixão,
Sem qualquer ferida
Sem qualquer medo
Sem qualquer segredo
Agradecemos
sua Divina Presença.

Jaya Bhairavi Devi!

- Satya Devi

8.07.2015

Desaparecendo
Com as Folhas de Outono
Voaram meus cabelos
Voou meu rosto

Estou pronta agora
para o Senhor das Máscaras
Faz de meu corpo
Cabide de tuas faces

Finalmente vazia de mim
Encontrei-Te no Vazio.
Consagrar-me a Ti
Já é equívoco.

Sempre fui
Sempre serei
É impossível deixar de Ser
Você

Numa de tuas tragicômicas máscaras,
Cascas
de matéria
cansada

Mortal
Quebrável
e Doente
de saudade
- Satya Devi

7.15.2015

Quando eu tinha sete anos fui fazer catequese. Após poucos meses, o padre chamou a atenção das mães para que suas filhas não usassem alcinhas nas missas aos Domingos porque isso 'tirava atenção' - dos fiéis e dele mesmo, o padre.
Por sorte, minha mãe me tirou da catequese.

Quando eu tinha nove anos, algumas amigas minhas já tinham seios e por isso eram tratadas de um jeito diferente. Assim eu conheci a obsessão suja pela qual as mulheres passam diariamente. Uma obsessão que alguns chamam de 'sorte', de 'elogio'. Mas na verdade, é violência mesmo. Eu achei que isso passaria conforme os meninos crescessem. Eu estava errada.

Quando eu tinha doze anos, eu fui no Hopi Hari com a escolinha de inglês. Um dos 'monstrinhos' de terror assustou eu e um grupo de amigas minhas e nos encurralou em direção a um grupo de homens que nos agarraram. Eu enfiei as unhas no rosto do meu agressor e saí correndo. Outras amigas não tiveram a mesma sorte e foram beijadas e tocadas à força. Contamos pro segurança, mas aqueles homens tinham saído dali e não havia nada que eles pudessem fazer a não ser que a gente reconhecesse os caras e denunciasse na hora certa.

Quando eu tinha dezoito anos, na faculdade, numa passeata de calouros pela cidade, um bêbado [estudante da mesma faculdade que eu] tentou três vezes me agarrar à força. Na terceira eu bati com um cano de ferro no olho dele e saí correndo. Ele cambaleou pra trás e quase desmaiou. Acharam que eu exagerei. E eu só fiquei preocupada de encontrar o mesmo cara depois - na passeata, ou na faculdade. Não soltei o cano de ferro até chegar em casa, e fiquei em guarda o tempo inteiro pronta para dar mais uma porrada em quem quer que se aproximasse de mim contra a minha vontade. Foi a última festinha de faculdade que participei.

Quando eu tinha dezenove anos, eu andava três quarteirões a mais todo dia para desviar de uma obra onde um grupo de 5 homens gritavam cantadas pra mim do outro lado da rua. Mas não conseguia desviar da avenida que atravessava a pé para entrar na faculdade ouvindo as coisas mais nojentas possíveis dos caminhoneiros que passavam por ela no trânsito.

Quando eu tinha vinte anos de idade, eu fui sozinha pra um bar. Ninguém se quer conversou comigo - a não ser um cara dando em cima de mim ostensivamente - porque eu era ex de um frequentador do mesmo bar. Voltei pra casa de carona com os donos do bar [era um casal] que ficaram apreensivos de eu voltar a pé sozinha. Até hoje agradeço mentalmente aquela carona.

Quando eu tinha vinte e dois anos de idade perguntaram pra um colega de trabalho meu, em tom de escárnio, se era eu que era a 'irmãzinha' nova dele - afinal, a 'irmã' é a única relação possível em que um homem não come uma mulher com quem convive, não?

De tudo isso, um dos pensamentos mais insistentes que me ocorrem é: é uma pena que nem toda violência possa ser respondida com um cano de ferro no olho do agressor. Porque, dá vontade. Mas não resolve. Só aumenta.

O que fazer?
Como responder?

6.10.2015

E se a Bela
E a Fera
fossem só faces
de você?
E se a Bela
fosse voraz e furiosa
por detrás de uma máscara de doçura?
E se a Fera
fosse uma sensível criatura
como é todo ser selvagem?
E se ambas
tivessem que
de repente
conviver no castelo de você?
E é claro
Que é a Bela
Que é 'prisioneira' da Fera.
A ferocidade
detém beleza
Mas nem sempre
beleza
detém ferocidade
Mas Fera é um ser selvagem
não faz prisioneiros
nem aprisiona
não toma escravos
nem se permite escravizar
Não deterá Bela
de seguir seu caminho
em liberdade
quando ela assim desejar
Elas inevitavelmente se apaixonarão
entre ternuras e patadas
assim, meio sem perceber de imediato
como há de ser
E a aldeia inevitavelmente
invadirá o castelo
E as perturbarão com suas regras ridículas
e suas ameaças de jogar
Bela no manicômio
e Fera no precipício
E uma guerra se origina
Entre a magia do selvagem
e a vazia moral social
Mas o castelo-psique tem seus dons
tem suas magias e recursos
e não sem perdas
e não sem dor
é derrotada a moralidade vazia
talvez por puro milagre.
E antes que caia a última pétala
da Rosa encantada
[esse símbolo da própria Poesia]
Antes que se esvaia em nós
a última gota de orvalho da Esperança
Logo antes do último suspiro e inspiração
se esvair completamente de nós
Bela e Fera assumem
- não uma paixão -
mas sim, sua fusão
E assumem-se em silêncio.
Assumem-se para si mesmas.
O que o conto não conta
é que
A Fera não deixa de ser Fera
E Bela não deixa de ser Bela
O castelo bizarro não deixa de ser bizarro
Mas agora, Bela e Fera
são uma só
Só,
Porém, uma.
Única.
Mesma.
Inteira.
E é então que a Bela-Fera
abandona castelo, aldeia,
nobreza e pobreza
rompe as grades do castelo
e embrenha-se na floresta
E sabe-se que, lá na mata
em algum lugar,
deita-se lânguida uma Bela-Fera
Que respira aliviada
e chora sorrindo
por finalmente
voltar para casa
[um poema em devoção às faces furiosas da Divindade em aspecto Feminino. Jaya Bhairavi Devi!]

4.06.2015

Quando apaixonar-se pelo sombrio em si mesma
Tornar-se inevitável
Então saberás que terá começado
O fim do que não és.
- Satya Devi
Depois de provar a saliva de Shiva,
na boca de meu Amado
Nunca mais pude eu buscar a Verdade
Nas linhas deformadas
de um livro velho qualquer
O Absoluto não perde Seu Tempo
escrevendo linhas traduzíveis
a falhas-palavras humanas
Mas sim cria Seu Tempo
Para transbordar Seu Amor
nas curvilíneas linhas da natureza
- Satya Devi