7.15.2015

Quando eu tinha sete anos fui fazer catequese. Após poucos meses, o padre chamou a atenção das mães para que suas filhas não usassem alcinhas nas missas aos Domingos porque isso 'tirava atenção' - dos fiéis e dele mesmo, o padre.
Por sorte, minha mãe me tirou da catequese.

Quando eu tinha nove anos, algumas amigas minhas já tinham seios e por isso eram tratadas de um jeito diferente. Assim eu conheci a obsessão suja pela qual as mulheres passam diariamente. Uma obsessão que alguns chamam de 'sorte', de 'elogio'. Mas na verdade, é violência mesmo. Eu achei que isso passaria conforme os meninos crescessem. Eu estava errada.

Quando eu tinha doze anos, eu fui no Hopi Hari com a escolinha de inglês. Um dos 'monstrinhos' de terror assustou eu e um grupo de amigas minhas e nos encurralou em direção a um grupo de homens que nos agarraram. Eu enfiei as unhas no rosto do meu agressor e saí correndo. Outras amigas não tiveram a mesma sorte e foram beijadas e tocadas à força. Contamos pro segurança, mas aqueles homens tinham saído dali e não havia nada que eles pudessem fazer a não ser que a gente reconhecesse os caras e denunciasse na hora certa.

Quando eu tinha dezoito anos, na faculdade, numa passeata de calouros pela cidade, um bêbado [estudante da mesma faculdade que eu] tentou três vezes me agarrar à força. Na terceira eu bati com um cano de ferro no olho dele e saí correndo. Ele cambaleou pra trás e quase desmaiou. Acharam que eu exagerei. E eu só fiquei preocupada de encontrar o mesmo cara depois - na passeata, ou na faculdade. Não soltei o cano de ferro até chegar em casa, e fiquei em guarda o tempo inteiro pronta para dar mais uma porrada em quem quer que se aproximasse de mim contra a minha vontade. Foi a última festinha de faculdade que participei.

Quando eu tinha dezenove anos, eu andava três quarteirões a mais todo dia para desviar de uma obra onde um grupo de 5 homens gritavam cantadas pra mim do outro lado da rua. Mas não conseguia desviar da avenida que atravessava a pé para entrar na faculdade ouvindo as coisas mais nojentas possíveis dos caminhoneiros que passavam por ela no trânsito.

Quando eu tinha vinte anos de idade, eu fui sozinha pra um bar. Ninguém se quer conversou comigo - a não ser um cara dando em cima de mim ostensivamente - porque eu era ex de um frequentador do mesmo bar. Voltei pra casa de carona com os donos do bar [era um casal] que ficaram apreensivos de eu voltar a pé sozinha. Até hoje agradeço mentalmente aquela carona.

Quando eu tinha vinte e dois anos de idade perguntaram pra um colega de trabalho meu, em tom de escárnio, se era eu que era a 'irmãzinha' nova dele - afinal, a 'irmã' é a única relação possível em que um homem não come uma mulher com quem convive, não?

De tudo isso, um dos pensamentos mais insistentes que me ocorrem é: é uma pena que nem toda violência possa ser respondida com um cano de ferro no olho do agressor. Porque, dá vontade. Mas não resolve. Só aumenta.

O que fazer?
Como responder?