Eu teimava em sair daquela pequena casinha, onde algumas carteiras escolares se dispunham na frente de uma lousa. Nela, uma professora preta velha de cabelos grisalhos, óculos grandão e olhar amoroso escrevia coisas. Ela tranquilamente esperou eu me cansar de tentar sair. As portas não estavam fechadas, mas alguma coisa me fazia ficar. Entendi aquilo como um sinal de que eu deveria estar ali naquele momento por algum motivo.
"Senta aí..." disse ela quando viu que eu tinha desistido.
Sentei-me. Ela me disse coisas que não consegui entender, tentando fazer com que eu compreendesse alguma lição. Até que ela chamou um homem para entrar na sala. Ele estava profundamente triste por ter perdido os movimentos de suas pernas. Empurrando sua cadeira de rodas ele entrou com dificuldade da casinha e ficou ao lado dela, que trocou algumas palavras com ele, fazendo-o abstrair de sua dor, e fez menção de escrever algo na lousa.
"Com licença" disse ela a ele, que estava entre ela e a lousa;
O homem então apertou um botão na cadeira de rodas que o fez sair do lugar. Fiquei surpresa. Aquela cadeira não era automática. Não bastasse isso, ela lhe disse com toda naturalidade possível para pegar uma caneta na mesa ao lado. Como se nada tivesse acontecido, ele se levanta da cadeira de rodas, pega a caneta e entrega a ela. Ela então lança um olhar firme nos olhos dele. Ele nem se quer tinha percebido o que tinha feito.
Só então ele percebe que o motivo pelo qual estava chorando tanto já não existia mais. Ele estava andando. Todos ficamos muito comovidos, e ele muito agradecido, e se retirou da casinha, não sem antes a professora agradecer a ele por ter vindo.
Então ela vira-se para mim e diz
" Vê? Quando ficamos choramingando pelo o que não podemos fazer, nada acontece. Esqueça que você não pode, e você poderá. Simples assim. Esqueça que você não pode, e você poderá."
7.30.2013
7.28.2013
Oração da Dor
Da profunda dor do sonho não realizado, do grito calado e do impulso contido
Floresce a compreensão - e a promessa - de nunca mais calar o que precisa ser dito, de nunca mais conter o que precisa ser liber(t)ado.
A vida já contém o suficiente
Amem!
Floresce a compreensão - e a promessa - de nunca mais calar o que precisa ser dito, de nunca mais conter o que precisa ser liber(t)ado.
A vida já contém o suficiente
Amem!
7.25.2013
De repente tudo parece zerado.
Nada ficou no mesmo lugar em relação a poucos dias atrás.
De repente, mudam números de telefone, endereços, nomes, zeram-se até os arquivos do computador!
E amanhã, a faxina que ordena que deve acontecer, promete mudar também os móveis da casa - mais uma vez.
Sabemos um pouco do que foi, sentimos brutalmente a realidade do agora, mas ninguém tem noção do que será.
Sabemos que o que foi jamais será igual - e que o que virá não será como hoje.
E ainda que isso nos diga muito, nada diz.
Pois o medo é surdo, mudo e paralítico.
E a vida é movimento - e exige. Flexibilidade, entrega e que dancemos ao seu ritmo.
Cheguei a ter a estúpida idéia de que tudo que tinha para transformar já tinha sido transformado, portanto as coisas se estabilizariam.
Mas para além de transformar todas as faces da vida, existe o ponto em que ela se torna incontrolável,
Depois desse ponto, ela torna-se absurda,
E depois, completamente irreconhecível.
Como se nada do que tivesse sido, tivesse um dia sido.
Como se nada do que tivesse respirado, tivesse um dia respirado.
Mutilada de passado, tento olhar a frente e nada consigo ver se não ofuscante Luz
Um Sol no horizonte cega meus olhos - e já não sei dizer se ele nasce ou se põe.
Já não sei muito bem de onde venho
Já não sei muito bem pra onde vou
Já não sei se andava ou se dormia alguns segundos atrás
Mas sei - e sei em tamanha Verdade que chega a doer na Alma- que aqui estou.
E sei - em tamanha Verdade que chega a tremular a carne - que esta música continua tocando... E tocando... E tocando...
Danço.
Como poderia eu fazer outra coisa se não dançar?
Se já nada sei, se já nada vejo se não essa Luz que ofusca, se já nada busco, nada carrego, nada faço, o que me resta se não dançar essa música que toca?
Pois já tive passos... E agora eles não estão mais aqui
Já tive lindas paisagens... E agora elas não estão mais aqui
Já tive firmes certezas... E agora elas não estão mais aqui
Mas a música... Ah! A música permanece...
E sei - com tanta Verdade que me preenche por inteira - que ela permanecerá! Tocando...
E tocando...
E tocando...
Você
também sente?
Você
também dança?
Nada ficou no mesmo lugar em relação a poucos dias atrás.
De repente, mudam números de telefone, endereços, nomes, zeram-se até os arquivos do computador!
E amanhã, a faxina que ordena que deve acontecer, promete mudar também os móveis da casa - mais uma vez.
Sabemos um pouco do que foi, sentimos brutalmente a realidade do agora, mas ninguém tem noção do que será.
Sabemos que o que foi jamais será igual - e que o que virá não será como hoje.
E ainda que isso nos diga muito, nada diz.
Pois o medo é surdo, mudo e paralítico.
E a vida é movimento - e exige. Flexibilidade, entrega e que dancemos ao seu ritmo.
Cheguei a ter a estúpida idéia de que tudo que tinha para transformar já tinha sido transformado, portanto as coisas se estabilizariam.
Mas para além de transformar todas as faces da vida, existe o ponto em que ela se torna incontrolável,
Depois desse ponto, ela torna-se absurda,
E depois, completamente irreconhecível.
Como se nada do que tivesse sido, tivesse um dia sido.
Como se nada do que tivesse respirado, tivesse um dia respirado.
Mutilada de passado, tento olhar a frente e nada consigo ver se não ofuscante Luz
Um Sol no horizonte cega meus olhos - e já não sei dizer se ele nasce ou se põe.
Já não sei muito bem de onde venho
Já não sei muito bem pra onde vou
Já não sei se andava ou se dormia alguns segundos atrás
Mas sei - e sei em tamanha Verdade que chega a doer na Alma- que aqui estou.
E sei - em tamanha Verdade que chega a tremular a carne - que esta música continua tocando... E tocando... E tocando...
Danço.
Como poderia eu fazer outra coisa se não dançar?
Se já nada sei, se já nada vejo se não essa Luz que ofusca, se já nada busco, nada carrego, nada faço, o que me resta se não dançar essa música que toca?
Pois já tive passos... E agora eles não estão mais aqui
Já tive lindas paisagens... E agora elas não estão mais aqui
Já tive firmes certezas... E agora elas não estão mais aqui
Mas a música... Ah! A música permanece...
E sei - com tanta Verdade que me preenche por inteira - que ela permanecerá! Tocando...
E tocando...
E tocando...
Você
também sente?
Você
também dança?
7.19.2013
Sobre pecados e Deuses
Deusa, mulher ou menina que aqui me lês,
Dos homens que te cercam, quantos deles te fazem sentir verdadeiramente mulher?
Dos homens cercados por ti, quantos deles fazes tu sentirem-se verdadeiramente homens?
Dos homens que te cercam, quantos deles fazem-te arrepiar a espinha de desejo?
Quantos deles te inspiram um beijo? Um chamego, um abraço?
Dos homens que te beijam,
Quais deles despertam a Deusa Selvagem em ti?
Destes que despertam, quais deles a honram?
Destes que honram, quais deles a amam?
Destes que a amam, quais deles a temem?
Destes que a temem, quais deles permanecem te beijando quando esta Deusa em fúria desperta?
E quando brota em ti a menina indefesa proibida de ti pela dureza da vida,
Quais deles oferecem-te colo?
Destes que oferecem colo, quais deles não tiram algo 'a mais' desse colo?
Destes que não tiram algo a mais, quais deles não pedem nada em troca?
Destes que nada pedem, quantos permanecem ao teu lado quando esta menina vira mulher novamente?
Dos homens que te desejam,
Quais deles continuam te desejando quando nem tu mesma te desejas?
Destes que ficam, quais deles estariam ao teu lado se tua pele não fosse tão macia e teus lábios não tão voluptosos?
Destes, quais deles continuam ao teu lado quando tens toda volúpia e insaciável desejo?
Destes que continuam, quais deles continuam te desejando quando tens todo este fogo...
...por outro?
Não é pecado temer.
Não é pecado tremer.
Não é pecado desejar.
Não é pecado chorar.
Homens são homens. Homens são crianças. Homens são velhos.
Mas negar é pecado.
Fugir eternamente é pecado.
Mentir é pecado.
Falsificar-se de si mesmo é o maior pecado que se pode cometer.
Deusa que me lês,
Não espere que caia aos teus pés o Deus invencível
Forte, belo, compreensivo, amoroso, pontual e infalível.
Não espere o príncipe encantado
cheio de desejos, honras, status e fantasias.
Não espere o herói que te salva de todo perigo
Que te coloca no pedestal e nos holofotes
Ansioso por declarar ao mundo seu puro amor por ti.
Não!
Mas sim o Ser homem
Que é criança, adulto, velho
Medroso, corajoso, poeta, racional
Pai, filho, irmão
Pervertido, bêbado, santo e devoto
Tudo isso
Nada disso
Tipo isso
Ou o que quer que for em Verdade
Mas que ele se faça Deus
Em mostrar-lhe cada uma de suas feridas profundas
Em admitir-lhe em lágrimas cada um de seus medos
Em encarar com a coragem de Thor sua Kali em fúria
Em expor toda sua delicadeza em poemas de Amor
Em confessar-lhe suas mais indecentes fantasias
e pedir para que confesse-lhe as suas.
Que ele se faça Deus
Em olhar-te nos olhos quando precisas
Em afastar-se quando pedes
Em libertar-te quando exiges
Em honrar-te mesmo quando não vês
Pois tu, ó Deusa,
Não se faz Deusa por ser apenas linda
Apenas fera, apenas donzela,
Apenas Kali ou apenas criança
Mas sim por ser todas elas
Aceitando todas elas
Honrando todas elas
Amando todas elas
Com-sciência
- incondicionalmente.
O mesmo se aplica aos Deuses
Não condene teus amados
À irremediável dor e loucura de afastarem-se de si mesmos
Como tu mesma foste condenada pelos séculos
A não-ser o que verdadeiramente és.
E para o homem - ou mulher - que faz-se Deus para ti,
faça-se Deusa para Ele, se assim tua Alma pedir
Aceitando-te também
Amando-te também
Expondo-te também
Por inteira
Pois não é a ausência de pecado
Mas sim a nudez
Que trans-forma homens e mulheres
em Deuses.
Dos homens que te cercam, quantos deles te fazem sentir verdadeiramente mulher?
Dos homens cercados por ti, quantos deles fazes tu sentirem-se verdadeiramente homens?
Dos homens que te cercam, quantos deles fazem-te arrepiar a espinha de desejo?
Quantos deles te inspiram um beijo? Um chamego, um abraço?
Dos homens que te beijam,
Quais deles despertam a Deusa Selvagem em ti?
Destes que despertam, quais deles a honram?
Destes que honram, quais deles a amam?
Destes que a amam, quais deles a temem?
Destes que a temem, quais deles permanecem te beijando quando esta Deusa em fúria desperta?
E quando brota em ti a menina indefesa proibida de ti pela dureza da vida,
Quais deles oferecem-te colo?
Destes que oferecem colo, quais deles não tiram algo 'a mais' desse colo?
Destes que não tiram algo a mais, quais deles não pedem nada em troca?
Destes que nada pedem, quantos permanecem ao teu lado quando esta menina vira mulher novamente?
Dos homens que te desejam,
Quais deles continuam te desejando quando nem tu mesma te desejas?
Destes que ficam, quais deles estariam ao teu lado se tua pele não fosse tão macia e teus lábios não tão voluptosos?
Destes, quais deles continuam ao teu lado quando tens toda volúpia e insaciável desejo?
Destes que continuam, quais deles continuam te desejando quando tens todo este fogo...
...por outro?
Não é pecado temer.
Não é pecado tremer.
Não é pecado desejar.
Não é pecado chorar.
Homens são homens. Homens são crianças. Homens são velhos.
Mas negar é pecado.
Fugir eternamente é pecado.
Mentir é pecado.
Falsificar-se de si mesmo é o maior pecado que se pode cometer.
Deusa que me lês,
Não espere que caia aos teus pés o Deus invencível
Forte, belo, compreensivo, amoroso, pontual e infalível.
Não espere o príncipe encantado
cheio de desejos, honras, status e fantasias.
Não espere o herói que te salva de todo perigo
Que te coloca no pedestal e nos holofotes
Ansioso por declarar ao mundo seu puro amor por ti.
Não!
Mas sim o Ser homem
Que é criança, adulto, velho
Medroso, corajoso, poeta, racional
Pai, filho, irmão
Pervertido, bêbado, santo e devoto
Tudo isso
Nada disso
Tipo isso
Ou o que quer que for em Verdade
Mas que ele se faça Deus
Em mostrar-lhe cada uma de suas feridas profundas
Em admitir-lhe em lágrimas cada um de seus medos
Em encarar com a coragem de Thor sua Kali em fúria
Em expor toda sua delicadeza em poemas de Amor
Em confessar-lhe suas mais indecentes fantasias
e pedir para que confesse-lhe as suas.
Que ele se faça Deus
Em olhar-te nos olhos quando precisas
Em afastar-se quando pedes
Em libertar-te quando exiges
Em honrar-te mesmo quando não vês
Pois tu, ó Deusa,
Não se faz Deusa por ser apenas linda
Apenas fera, apenas donzela,
Apenas Kali ou apenas criança
Mas sim por ser todas elas
Aceitando todas elas
Honrando todas elas
Amando todas elas
Com-sciência
- incondicionalmente.
O mesmo se aplica aos Deuses
Não condene teus amados
À irremediável dor e loucura de afastarem-se de si mesmos
Como tu mesma foste condenada pelos séculos
A não-ser o que verdadeiramente és.
E para o homem - ou mulher - que faz-se Deus para ti,
faça-se Deusa para Ele, se assim tua Alma pedir
Aceitando-te também
Amando-te também
Expondo-te também
Por inteira
Pois não é a ausência de pecado
Mas sim a nudez
Que trans-forma homens e mulheres
em Deuses.
7.17.2013
A criança dos cachinhos loiros
Quando estava prestando vestibular e pensava no período final da minha faculdade, sempre tinha uma mesma visão: um apartamento amarelinho [idêntico ao que eu moro hoje] pro qual eu voltava depois das aulas, e uma criança de cerca de uns 4 anos com os cabelinhos lourinhos encaracolados [idênticos aos meus qdo criança] corria pra me abraçar cheia de saudades. Sorríamos em profunda Paz e alegria.
Morria de medo dessa visão. Será que eu engravidaria no período da faculdade?! Respirava fundo e tentava espantar essa visão. Decretava internamente que eu só seria mãe muito tempo depois daquilo. Mas a visão continuava e continuava...
Hoje entendi que aquela criança não era minha filha - era eu mesma, de bem com a adulta em mim.
Morria de medo dessa visão. Será que eu engravidaria no período da faculdade?! Respirava fundo e tentava espantar essa visão. Decretava internamente que eu só seria mãe muito tempo depois daquilo. Mas a visão continuava e continuava...
Hoje entendi que aquela criança não era minha filha - era eu mesma, de bem com a adulta em mim.
7.13.2013
Da Lama que me cabe
Da Lama que me cabe - Lótus
Da que não me cabe - Kali
E tu, que aqui me lês,
Responda a ti mesmo se for capaz:
Desta Lama que engoles,
Quanto dela verdadeiramente te cabe?
E da Lama que te cabe,
Quanto dela verdadeiramente saboreias?
Da que não me cabe - Kali
E tu, que aqui me lês,
Responda a ti mesmo se for capaz:
Desta Lama que engoles,
Quanto dela verdadeiramente te cabe?
E da Lama que te cabe,
Quanto dela verdadeiramente saboreias?
A Voz
Aos poucos, sem saber
A gente vai lembrando
De sempre ouvir aquela voz
Que sempre sabe o que fazer
Aos poucos, sem saber
A gente vai ouvindo
Que sempre que lembrar daquela voz
Vai saber fazer
Aos poucos, sem ouvir,
A gente vai fazendo
E sempre que lembramos daquela voz
Sabemos parar
Aos poucos, sem fazer
A gente vai lembrando
Que sempre que ouvimos dessa voz
Sabemos
Aos poucos, sem parar
A gente vai lembrando
De que sempre ouvimos
Que sempre soubemos
Que sempre fizemos
Mesmo sem saber
Mesmo sem lembrar
- E então seremos
A gente vai lembrando
De sempre ouvir aquela voz
Que sempre sabe o que fazer
Aos poucos, sem saber
A gente vai ouvindo
Que sempre que lembrar daquela voz
Vai saber fazer
Aos poucos, sem ouvir,
A gente vai fazendo
E sempre que lembramos daquela voz
Sabemos parar
Aos poucos, sem fazer
A gente vai lembrando
Que sempre que ouvimos dessa voz
Sabemos
Aos poucos, sem parar
A gente vai lembrando
De que sempre ouvimos
Que sempre soubemos
Que sempre fizemos
Mesmo sem saber
Mesmo sem lembrar
- E então seremos
7.06.2013
A Dança de Shiva - uma partilha de Dança e Espiritualidade
Hoje fui a um workshop de dança. O tema: o masculino e o feminino no movimento. A oposição.
Pra quem entende o corpo como uma existência espiritual, bem como o masculino e o feminino e sua união também como profundamente espiritual, era inevitável. Eu estaria lá. Tudo acontecendo de forma muito mágica e 'conspiradora' para que eu lá estivesse - e muito bem acompanhada por bailarinas cujo trabalho sou fã.
O professor do workshop um bailarino que estudara ballet clássico, dança do ventre, tribal, jazz e muitas outras danças. Uma energia andrógina, um masculino-feminino que confunde e incomoda qualquer mente fechada. Tinha visto uma apresentação dele uma única vez ao vivo. Anos se passaram e eu não me esqueci daquilo. Fiquei sem entender como é que em 3 minutos ele tinha transformado meu completo estranhamento pela dança dele em completo hipnotismo e erotismo.
O work começou com uma roda em conversa sobre o que entendíamos por masculino e feminino. Ele categorizou o masculino em "ativo, forte, impactante" e o feminino em "receptivo, sensual, delicado". Fez também uma ênfase em que o que era "masculino" não pertencia necessariamente somente aos homens e vice-versa. De início rejeitei a idéia. Afinal, o feminino também poderia ser impactante e ativo! Afinal, o que não são as deidades furiosas femininas? Kali...? Durga...? Mas depois percebi que eu mesma estava partindo do pressuposto de que o passivo e delicado não eram tão legais quanto o ativo e forte. Deixei a questão do agressivo em suspenso, e me entreguei ao processo.
Conceitos à parte, iniciaram-se os passos. Aí que a coisa começou de verdade...
Ele nos entregou [estávamos em 5 mulheres e 1 homem] movimentos masculinos das danças árabes, das danças tribais africanas, flamenco entre outros. E sempre pedia uma postura 'forte', 'impactante' nos movimentos. Vários deles, trabalhando movimentos de 'fecundação' da Terra, imponência e força. Alternado a isso, alguns movimentos que já conhecíamos de dança do ventre e tribal, de receptividade e feminilidade. Foi incrível! Aqueles passos "machos" foram mexendo comigo de um jeito muito forte! Para além dos conceitos e noções, o corpo fala! E o meu corpo ali aprendia a falar em força, imponência, ativamente, impactante - intenção explícita no movimento! Conforme eu fui me entregando aqueles movimentos algo profundo em mim ia se mexendo. Eu não me sentia menos mulher, mas me sentia vigorosa, viril, poderosa. Era uma energia forte, alegre e expansiva que crescia em mim. Quando fui solicitada a retornar ao "feminino", ao rebolado, ao delicado, eu simplesmente achei chato demais! E só então percebi o quanto que meus movimentos, que eu julgava tão femininos como quebradas de quadril, colocação de braços e tronco etc, só me eram tão estéticos aos olhos justamente porque estavam carregados da força e da imponência "masculina". Sem essa energia da força, o movimento tornava-se mais lânguido, mais relaxado, mais receptivo - e mais chato! Ao mesmo tempo, com a força demais, agressividade demais, imponência demais, a coisa ficava vazia, violenta e absurdamente feia! kkkkkk...
Pude compreender que a beleza dos movimentos está justamente nesse "sexo" que é feito no corpo entre energias masculinas e femininas a cada movimento. Para além de preconceitos de "passos de homem" versus "passos de mulher" existe um universo de oposição que é muito gostoso! Uma dança sem energia feminina é uma dança bruta e feia. Uma dança sem energia masculina é chata e parada. Coloque ambos 'transando' no corpo e algo fascinante começa a acontecer! Uma dança flamenca típica é um ótimo exemplo disso. Tem-se todo o impacto e força e ao mesmo tempo a delicadeza dos floreios, a sutileza do teatral e a sensualidade. Uma Dança do Ventre impactante também tem seus momentos de imponência. E o que funciona no corpo, funciona na vida!
Trabalhar com a oposição e a alternância - para além dos conceitos de masculino e feminino, que nada mais são do que uma das formas de oposição manifestadas no universo - possibilita uma profunda transcendência. Brincar com a dualidade nos possibilita chegar à unidade. Quando mais conscientemente essa oposição é feita - tanto no corpo quanto na Alma - mais profunda é a transcendência, que vem da Plenitude que se instala a partir da união dessas forças. E se funciona no corpo, funciona na vida! Quanto mais conseguimos mergulhar no prático, racional, objetivo e intencional e ao mesmo tempo no subjetivo, intuitivo, devocional e emotivo, maior a possibilidade de transcendência. De compreensão, de aceitação, de Plenitude! Negue a oposição e estará negando à Unidade!
Pessoalmente, ainda não cheguei a uma conclusão final sobre o que são "características do feminino" ou "características do masculino". Desconfio eu que essas forças são forças para além da compreensão cultural ou racional - são forças que se manifestam e explicam por si mesmas. A característica do feminino é feminino e ponto final. O mesmo para o masculino. Na Dança, no corpo e na vida, o que importa não é saber se o "ativo" é masculino ou feminino, ou se a agressividade é masculina ou feminina, mas sim saber que ativo se opõe a passivo - ponto final. Lembrando sempre que ambas as características co-existem dentro da cada indivíduo independente de seu gênero ou opção sexual.
"Dualizar" as forças é útil para permitir que esse "sexo", esse "re-encontro" aconteça. E a partir dele, um "gozo" que leve de volta à Unidade. Seja o gozo de achar um movimento bonito, seja o gozo de sentir-se pleno por equilibrar as energias agressivas e pacificadoras em nossas relações, ou o que quer que seja... Enxergar a dança, o corpo ou a vida dessa forma é um caminho espiritual possível, lindo e apaixonante!
Gratidão a todas as 'forças conspiradoras' do Universo que permitiram que eu tivesse mais essa importante peça do quebra-cabeça na compreensão da Vida e seus movimentos! Que eu possa sempre estar atenta para que outras mais possam vir!
Pra quem entende o corpo como uma existência espiritual, bem como o masculino e o feminino e sua união também como profundamente espiritual, era inevitável. Eu estaria lá. Tudo acontecendo de forma muito mágica e 'conspiradora' para que eu lá estivesse - e muito bem acompanhada por bailarinas cujo trabalho sou fã.
O professor do workshop um bailarino que estudara ballet clássico, dança do ventre, tribal, jazz e muitas outras danças. Uma energia andrógina, um masculino-feminino que confunde e incomoda qualquer mente fechada. Tinha visto uma apresentação dele uma única vez ao vivo. Anos se passaram e eu não me esqueci daquilo. Fiquei sem entender como é que em 3 minutos ele tinha transformado meu completo estranhamento pela dança dele em completo hipnotismo e erotismo.
O work começou com uma roda em conversa sobre o que entendíamos por masculino e feminino. Ele categorizou o masculino em "ativo, forte, impactante" e o feminino em "receptivo, sensual, delicado". Fez também uma ênfase em que o que era "masculino" não pertencia necessariamente somente aos homens e vice-versa. De início rejeitei a idéia. Afinal, o feminino também poderia ser impactante e ativo! Afinal, o que não são as deidades furiosas femininas? Kali...? Durga...? Mas depois percebi que eu mesma estava partindo do pressuposto de que o passivo e delicado não eram tão legais quanto o ativo e forte. Deixei a questão do agressivo em suspenso, e me entreguei ao processo.
Conceitos à parte, iniciaram-se os passos. Aí que a coisa começou de verdade...
Ele nos entregou [estávamos em 5 mulheres e 1 homem] movimentos masculinos das danças árabes, das danças tribais africanas, flamenco entre outros. E sempre pedia uma postura 'forte', 'impactante' nos movimentos. Vários deles, trabalhando movimentos de 'fecundação' da Terra, imponência e força. Alternado a isso, alguns movimentos que já conhecíamos de dança do ventre e tribal, de receptividade e feminilidade. Foi incrível! Aqueles passos "machos" foram mexendo comigo de um jeito muito forte! Para além dos conceitos e noções, o corpo fala! E o meu corpo ali aprendia a falar em força, imponência, ativamente, impactante - intenção explícita no movimento! Conforme eu fui me entregando aqueles movimentos algo profundo em mim ia se mexendo. Eu não me sentia menos mulher, mas me sentia vigorosa, viril, poderosa. Era uma energia forte, alegre e expansiva que crescia em mim. Quando fui solicitada a retornar ao "feminino", ao rebolado, ao delicado, eu simplesmente achei chato demais! E só então percebi o quanto que meus movimentos, que eu julgava tão femininos como quebradas de quadril, colocação de braços e tronco etc, só me eram tão estéticos aos olhos justamente porque estavam carregados da força e da imponência "masculina". Sem essa energia da força, o movimento tornava-se mais lânguido, mais relaxado, mais receptivo - e mais chato! Ao mesmo tempo, com a força demais, agressividade demais, imponência demais, a coisa ficava vazia, violenta e absurdamente feia! kkkkkk...
Pude compreender que a beleza dos movimentos está justamente nesse "sexo" que é feito no corpo entre energias masculinas e femininas a cada movimento. Para além de preconceitos de "passos de homem" versus "passos de mulher" existe um universo de oposição que é muito gostoso! Uma dança sem energia feminina é uma dança bruta e feia. Uma dança sem energia masculina é chata e parada. Coloque ambos 'transando' no corpo e algo fascinante começa a acontecer! Uma dança flamenca típica é um ótimo exemplo disso. Tem-se todo o impacto e força e ao mesmo tempo a delicadeza dos floreios, a sutileza do teatral e a sensualidade. Uma Dança do Ventre impactante também tem seus momentos de imponência. E o que funciona no corpo, funciona na vida!
Trabalhar com a oposição e a alternância - para além dos conceitos de masculino e feminino, que nada mais são do que uma das formas de oposição manifestadas no universo - possibilita uma profunda transcendência. Brincar com a dualidade nos possibilita chegar à unidade. Quando mais conscientemente essa oposição é feita - tanto no corpo quanto na Alma - mais profunda é a transcendência, que vem da Plenitude que se instala a partir da união dessas forças. E se funciona no corpo, funciona na vida! Quanto mais conseguimos mergulhar no prático, racional, objetivo e intencional e ao mesmo tempo no subjetivo, intuitivo, devocional e emotivo, maior a possibilidade de transcendência. De compreensão, de aceitação, de Plenitude! Negue a oposição e estará negando à Unidade!
Pessoalmente, ainda não cheguei a uma conclusão final sobre o que são "características do feminino" ou "características do masculino". Desconfio eu que essas forças são forças para além da compreensão cultural ou racional - são forças que se manifestam e explicam por si mesmas. A característica do feminino é feminino e ponto final. O mesmo para o masculino. Na Dança, no corpo e na vida, o que importa não é saber se o "ativo" é masculino ou feminino, ou se a agressividade é masculina ou feminina, mas sim saber que ativo se opõe a passivo - ponto final. Lembrando sempre que ambas as características co-existem dentro da cada indivíduo independente de seu gênero ou opção sexual.
"Dualizar" as forças é útil para permitir que esse "sexo", esse "re-encontro" aconteça. E a partir dele, um "gozo" que leve de volta à Unidade. Seja o gozo de achar um movimento bonito, seja o gozo de sentir-se pleno por equilibrar as energias agressivas e pacificadoras em nossas relações, ou o que quer que seja... Enxergar a dança, o corpo ou a vida dessa forma é um caminho espiritual possível, lindo e apaixonante!
Gratidão a todas as 'forças conspiradoras' do Universo que permitiram que eu tivesse mais essa importante peça do quebra-cabeça na compreensão da Vida e seus movimentos! Que eu possa sempre estar atenta para que outras mais possam vir!
7.01.2013
Sobre batuques e bongôs
O que será que acontece entre este bongô e eu?
Que quando eu me rendo aos seus batuques, o mundo se cala em música e ritmo...
Que esqueço do mundo, dos outros e de mim?
Que todos os conflitos ficam do lado de fora do Ser, e apenas Ser me basta?
Não sei. Talvez jamais saiba.
Mas o mais importante não é explicar, e sim saber que é possível
Mesmo apesar do mundo, apesar das pessoas, da vida e da morte,
Batucar a existência em meu próprio ritmo, com um sorriso no rosto e Paz no coração.
Tantas outras lições o bongô me traz...
Uma delas, que é muito tênue a linha que separa o ritmo correto do incorreto.
Outra é que a batida forte demais machuca. A fraca demais, não satisfaz.
E às vezes já estamos prontos para tocar coisas muito mais complexas do que pensamos.
Mas se não estivermos, no pior dos casos, tudo que pode acontecer é uma ou outra batida saírem meio tortas - nada mais que isso. O batuque segue seu fluxo...
Outra lição é a de que muitas vezes as mãos sabem mais do que a cabeça
E é preciso ensinar a cabeça a aprender com as mãos. Não só o oposto.
Ou ainda que o "gingado" é irresistível, e parte do processo, quando batucamos no ritmo certo
E que para estar no ritmo certo é preciso prestar muita atenção na música que está sendo tocada.
É... Preciso tocar bongô mais vezes...
Ou será que é ele que me toca...?
Que quando eu me rendo aos seus batuques, o mundo se cala em música e ritmo...
Que esqueço do mundo, dos outros e de mim?
Que todos os conflitos ficam do lado de fora do Ser, e apenas Ser me basta?
Não sei. Talvez jamais saiba.
Mas o mais importante não é explicar, e sim saber que é possível
Mesmo apesar do mundo, apesar das pessoas, da vida e da morte,
Batucar a existência em meu próprio ritmo, com um sorriso no rosto e Paz no coração.
Tantas outras lições o bongô me traz...
Uma delas, que é muito tênue a linha que separa o ritmo correto do incorreto.
Outra é que a batida forte demais machuca. A fraca demais, não satisfaz.
E às vezes já estamos prontos para tocar coisas muito mais complexas do que pensamos.
Mas se não estivermos, no pior dos casos, tudo que pode acontecer é uma ou outra batida saírem meio tortas - nada mais que isso. O batuque segue seu fluxo...
Outra lição é a de que muitas vezes as mãos sabem mais do que a cabeça
E é preciso ensinar a cabeça a aprender com as mãos. Não só o oposto.
Ou ainda que o "gingado" é irresistível, e parte do processo, quando batucamos no ritmo certo
E que para estar no ritmo certo é preciso prestar muita atenção na música que está sendo tocada.
É... Preciso tocar bongô mais vezes...
Ou será que é ele que me toca...?
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