7.06.2013

A Dança de Shiva - uma partilha de Dança e Espiritualidade

Hoje fui a um workshop de dança. O tema: o masculino e o feminino no movimento. A oposição.

Pra quem entende o corpo como uma existência espiritual, bem como o masculino e o feminino e sua união também como profundamente espiritual, era inevitável. Eu estaria lá. Tudo acontecendo de forma muito mágica e 'conspiradora' para que eu lá estivesse - e muito bem acompanhada por bailarinas cujo trabalho sou fã.

O professor do workshop um bailarino que estudara ballet clássico, dança do ventre, tribal, jazz e muitas outras danças. Uma energia andrógina, um masculino-feminino que confunde e incomoda qualquer mente fechada. Tinha visto uma apresentação dele uma única vez ao vivo. Anos se passaram e eu não me esqueci daquilo. Fiquei sem entender como é que em 3 minutos ele tinha transformado meu completo estranhamento pela dança dele em completo hipnotismo e erotismo.

O work começou com uma roda em conversa sobre o que entendíamos por masculino e feminino. Ele categorizou o masculino em "ativo, forte, impactante" e o feminino em "receptivo, sensual, delicado". Fez também uma ênfase em que o que era "masculino" não pertencia necessariamente somente aos homens e vice-versa. De início rejeitei a idéia. Afinal, o feminino também poderia ser impactante e ativo! Afinal, o que não são as deidades furiosas femininas? Kali...? Durga...? Mas depois percebi que eu mesma estava partindo do pressuposto de que o passivo e delicado não eram tão legais quanto o ativo e forte. Deixei a questão do agressivo em suspenso, e me entreguei ao processo.

Conceitos à parte, iniciaram-se os passos. Aí que a coisa começou de verdade...

Ele nos entregou [estávamos em 5 mulheres e 1 homem] movimentos masculinos das danças árabes, das danças tribais africanas, flamenco entre outros. E sempre pedia uma postura 'forte', 'impactante' nos movimentos. Vários deles, trabalhando movimentos de 'fecundação' da Terra, imponência e força. Alternado a isso, alguns movimentos que já conhecíamos de dança do ventre e tribal, de receptividade e feminilidade. Foi incrível! Aqueles passos "machos" foram mexendo comigo de um jeito muito forte! Para além dos conceitos e noções, o corpo fala! E o meu corpo ali aprendia a falar em força, imponência, ativamente, impactante - intenção explícita no movimento! Conforme eu fui me entregando aqueles movimentos algo profundo em mim ia se mexendo. Eu não me sentia menos mulher, mas me sentia vigorosa, viril, poderosa. Era uma energia forte, alegre e expansiva que crescia em mim. Quando fui solicitada a retornar ao "feminino", ao rebolado, ao delicado, eu simplesmente achei chato demais! E só então percebi o quanto que meus movimentos, que eu julgava tão femininos como quebradas de quadril, colocação de braços e tronco etc, só me eram tão estéticos aos olhos justamente porque estavam carregados da força e da imponência "masculina". Sem essa energia da força, o movimento tornava-se mais lânguido, mais relaxado, mais receptivo - e mais chato! Ao mesmo tempo, com a força demais, agressividade demais, imponência demais, a coisa ficava vazia, violenta e absurdamente feia! kkkkkk...

Pude compreender que a beleza dos movimentos está justamente nesse "sexo" que é feito no corpo entre energias masculinas e femininas a cada movimento. Para além de preconceitos de "passos de homem" versus "passos de mulher" existe um universo de oposição que é muito gostoso! Uma dança sem energia feminina é uma dança bruta e feia. Uma dança sem energia masculina é chata e parada. Coloque ambos 'transando' no corpo e algo fascinante começa a acontecer! Uma dança flamenca típica é um ótimo exemplo disso. Tem-se todo o impacto e força e ao mesmo tempo a delicadeza dos floreios, a sutileza do teatral e a sensualidade. Uma Dança do Ventre impactante também tem seus momentos de imponência. E o que funciona no corpo, funciona na vida!

Trabalhar com a oposição e a alternância - para além dos conceitos de masculino e feminino, que nada mais são do que uma das formas de oposição manifestadas no universo - possibilita uma profunda transcendência. Brincar com a dualidade nos possibilita chegar à unidade. Quando mais conscientemente essa oposição é feita - tanto no corpo quanto na Alma - mais profunda é a transcendência, que vem da Plenitude que se instala a partir da união dessas forças. E se funciona no corpo, funciona na vida! Quanto mais conseguimos mergulhar no prático, racional, objetivo e intencional e ao mesmo tempo no subjetivo, intuitivo, devocional e emotivo, maior a possibilidade de transcendência. De compreensão, de aceitação, de Plenitude! Negue a oposição e estará negando à Unidade!

Pessoalmente, ainda não cheguei a uma conclusão final sobre o que são "características do feminino" ou "características do masculino". Desconfio eu que essas forças são forças para além da compreensão cultural ou racional - são forças que se manifestam e explicam por si mesmas. A característica do feminino é feminino e ponto final. O mesmo para o masculino. Na Dança, no corpo e na vida, o que importa não é saber se o "ativo" é masculino ou feminino, ou se a agressividade é masculina ou feminina, mas sim saber que ativo se opõe a passivo - ponto final. Lembrando sempre que ambas as características co-existem dentro da cada indivíduo independente de seu gênero ou opção sexual.

"Dualizar" as forças é útil para permitir que esse "sexo", esse "re-encontro" aconteça. E a partir dele, um "gozo" que leve de volta à Unidade. Seja o gozo de achar um movimento bonito, seja o gozo de sentir-se pleno por equilibrar as energias agressivas e pacificadoras em nossas relações, ou o que quer que seja... Enxergar a dança, o corpo ou a vida dessa forma é um caminho espiritual possível, lindo e apaixonante!

Gratidão a todas as 'forças conspiradoras' do Universo que permitiram que eu tivesse mais essa importante peça do quebra-cabeça na compreensão da Vida e seus movimentos! Que eu possa sempre estar atenta para que outras mais possam vir!

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