Saudades do outro pode doer como uma facada no coração que pulsa
Mas saudades de si mesmo dói como não ter um coração que pulsa.
6.29.2013
A Cama
O deitar-se. Devaniar-se pelo espaço e pelo tempo sem destino nem hora pra voltar... A vida seguindo seu fluxo natural pelo entrar e sair do ar, o vai e vem que impulsiona meus devaneios. Aqui, de meu habitat natural, vago pelos pensamentos que o corpo me traz. Re-conheço-me. As mãos deslizam pela pele como os rios fluem para o mar. A vida transforma-se a cada gesto, a cada milímetro, cada ponto do corpo, uma história pra contar. Cada ar que entra é diferente do ar que sai e que nunca mais será o mesmo. E por entre lembranças e esquecimentos, o corpo chama por suas vontades. Minha mente, meu império, onde tudo se torna possível. Meus pensamentos deslizam até desaguarem nele, o homem de meus delírios, o realizador de minhas fantasias, aquele pelo qual me perco - e me encontro. Fantasias e desejos já conhecidos e vividos... Momentos que tão profundamente me marcaram que todas as vezes que me olho, lá estão suas marcas, suas palavras escritas na língua impronunciável do corpo. Amo cada homem que já esteve comigo em Verdade. Amo cada homem que um dia estará. Tudo está aqui. Registrado, tatuado para além do tempo. Todos os amores do porvir, todos os amores já idos. E se antes culpava-me por minha fome insaciável, que parecia que jamais poderia ser saciada, hoje eu a reverencio. Hoje eu a abraço em meu Ser. Que venham os vinhos do Amor até mim! Que fluam os que eu já experimento com os lábios! Cada gota que me vem obriga-me a pedir por mais... A fome que nunca sacia não é a fome do outro, não é a sede de consumir, aniquilando. Mas sim o desejo tão visceral de absorver e de ser absorvida. De lambuzar-se, deliciar-se, extasiar-se de um alimento que não se desfaz na boca com a saliva. Ou será que desfaz e se reconstrói antes que percebamos?
Dessa fome que sinto, pouca coisa escapa. Fome de paixão, de calor, de beijo, massagem, colo, cafuné, soneca durante a tarde, dormir de conchinha. Em meu império de devaneios, não há distinção entre o profano e o sagrado, entre o cuidado e o sexo, entre o proibido e o possível, entre eu e o Universo, com todos os seus seres. Aqui, neste império, eu posso. Aqui, eu sou. E é então que uma grande compreensão pousa em meu coração. Pois houve um tempo, que me parece cada vez mais fora do tempo, em que eu negava minhas fomes, negava-me meu império de devaneios, negava-me o profano, o sagrado, o certo e o errado. Houve um tempo em que eu era pura negação. Compreendo então que da grande solidão que sinto, da irremediável sede do outro, muito era apenas fome de mim mesma. Saudades de mim. Pois aqui entre os lençóis, sozinha, na penumbra, onde desvela-se um Universo interno infinito como o externo, eu posso ser o que sou em Verdade. Sem isso, sou só metade. Vagando pelas ruas como um zumbi, buscando em outras metades zumbis algo que me complete e preencha. E nunca encontro é claro...
Mas isso agora é passado... Será que um dia realmente foi? Minhas memórias de cérebro contram esta história que meu corpo desmente. Na pele sempre foi hoje. E hoje eu sempre fui inteira. Metade este devaneio. Metade corpo. Uma parte lá outra cá. Unidas como dois amantes apaixonados. Apaixono-me por mim mesma. Em breve, estarei trocando poemas, beijos até que me renda totalmente. Eu sei. Eu sinto. Eu sou. Em breve, descobrirei até onde eu posso me preencher comigo mesma, e até onde o toque do outro me é fome que pode matar. Até lá, afastem-se as outras peles. Minha pele precisa de mim. E aos poucos, a cada batida do coração, a Alma vai penetrando o corpo. Um divino e conhecido líquido vai escorrendo pela minha garganta. Eu. Engolida por mim. Isso é possível? Pra razão, eu não sei. Mas hoje eu sou corpo, o corpo é sempre hoje, e hoje isso não é possível mas acontece com tanta realidade quanto eu mesma. O fluxo não para. Continua indefinidamente. Mais e mais, cada vez mais fundo, cada vez mais preenchida. Qual será o tamanho da Alma? Teria eu tamanho dentro de mim para comportá-la? Teria eu desejo de mim suficiente para acomodá-la? Teria eu tanta libido a ponto de ser penetrada por algo Infinito em puro prazer? Não sei. Sei que hoje quero mais. E mais. E mais. Em minha mente, imagens de todos os que me despertam o desejo. Comem-me, sugam-me, lambuzam-me deles, mas eu não me engano. Não são eles que me devoram, mas sim eu mesma, fantasiada deles. Ainda assim, são eles. Ainda assim, sou eu. Como Alma, sou infinita, sou tudo, estou em qualquer lugar, em qualquer tempo. Eu sei. Eu sinto.
Findam-se as fronteiras. Findam-se as divisões. Dissipam-se as peles. Desfazendo-se como fumaça de incenso. Já não sei mais onde começo ou acabo. Ainda assim, devoro-me. Permito-me. Provo-me. Sem medos. Sem culpas. Sem restrições. Eu sou pura permissão. Eu sou pura libido sendo saciada em sua sede insaciável. Eu sou fluxo de escorre no não-tempo. Eu sou o beijo do amado na língua e a língua do amado. Eu sou o cafuné no dia frio e o puxar obsceno dos cabelos. Eu sou a expansão do Universo, e a contração do abdômen em orgasmo. Eu sou a vida que desabrocha, e até a vida que se esvai... Como sou grande! Como sou eterna! Como senti saudades de mim! Como a mim mesma sem início nem fim.
Então as palavras não alcançam mais a sensação que se manifesta. As músicas podem recordar-nos vagamente dela. Que nunca é igual, que nunca é a mesma, mas que nos canta, nos chama constantemente não importa aonde estivermos. Eu sei. Eu sinto.
E quando volto, nunca sei como nem quando nem onde, faço-me nascer de novo. Nada nunca mais é igual. Como se mais um véu fosse retirado de meus olhos e nunca mais fosse possível voltar. Toco minhas próprias mãos. Meu próprio rosto. Beijo-me com terno amor. Estou agora um véu mais próxima de mim mesma. E a cada vez que minha fome me obrigar a ousar voltar a estar dentro de mim mesma, mais um véu será retirado. Eu sei. Eu sinto.
6.27.2013
Amor e Alegria
Não sei se a vida tem sentido.
Não sei nem se ela faz sentido.
Mas o Amor Verdadeiro e a Alegria dão a ela o sentido que a Razão não explica.
De todas as coisas, Amor e Alegria, sempre!
Pois ainda que este tudo isso não seja nada, se tiver havido Amor e Alegria, tudo terá valido a pena.
Amor e Alegria não precisam de sentido
Amor e Alegria se justificam com si mesmos
Assim como a vida,
que tem dentro de si a morte,
que é semente da vida,
Não pede permissão,
nem licença,
nem desculpas pra ninguém por seguir seu próprio fluxo.
Não sei nem se ela faz sentido.
Mas o Amor Verdadeiro e a Alegria dão a ela o sentido que a Razão não explica.
De todas as coisas, Amor e Alegria, sempre!
Pois ainda que este tudo isso não seja nada, se tiver havido Amor e Alegria, tudo terá valido a pena.
Amor e Alegria não precisam de sentido
Amor e Alegria se justificam com si mesmos
Assim como a vida,
que tem dentro de si a morte,
que é semente da vida,
Não pede permissão,
nem licença,
nem desculpas pra ninguém por seguir seu próprio fluxo.
6.17.2013
Afinal, que diabos é Espiritualidade?
Já me disseram que Espiritualidade era ler um livro antigo e seguir sua ditadura,
Já me disseram que Espiritualidade era negar o mundo real,
Já me disseram que Espitualidade era uma fuga,
Já me disseram que Espiritualidade era um meio de dominação
...Mas não souberam me dizer porquê.
Já me disseram que Espititualidade eram códigos secretos da Alma que deveriam ser analisados num método quase científico,
Era tentar explicar o ilógico com o racional,
Eram símbolos mágicos que transformavam dimensões,
Que era perigoso, fantástico, bizarro.
...Mas não souberam me explicar porque ainda que tivessem todos os segredos do Universo, não havia sorriso em suas faces.
Já me disseram que Espiritualidade era lutar contra nós mesmos
Uma parte de nós nos aumenta, a outra diminui. Cabia a nós destruir a parte ruim.
Já me disseram que Espiritualidade era livrar-se do mundo e dos outros em nós
E ser pura Alma, pura energia, limpa das 'sujeiras mundanas' do Ego
...Mas não souberam me convencer de que se pode realmente viver alheio ao mundo.
Já me disseram que Espiritualidade era o Bem
Era lutar contra o Mau
Já me disseram que Espiritualidade era vingar a Deus
daquele que o traiu
...Mas não souberam me dizer como uma luta pode ser do Bem, nem como Deus pode não estar no traidor.
É. Já me disseram muitas coisas sobre Espiritualidade....
Mas o que eu sinto hoje é que Espiritualidade é descobrir que importa muito mais o que o Coração sente do que o que os outros dizem.
O que eu sinto hoje é que Espiritualidade é fazer do livro antigo um grande Poema,
para ser recitado, cantado, dançado para nos tornar plenos de Inspiração
Sinto hoje que Espiritualidade é perceber que a dominação só se dá de dentro pra fora, pois as prisões, algemas e punições são ilusões.
Sinto hoje que Espiritualidade é permitir-se cansar-se de tentar explicar e entender cada minúcia, para apenas gozar-se delas, vivê-las, experimentá-las, tal qual um bebê experimenta o mundo. Rindo, chorando, fazendo arte, fazendo besteira, botando sujeira na boca pra fazer cara feia - tudo como se fosse a primeira vez.
Sinto hoje que Espiritualidade é a não-luta. Não é desistência - Espiritualidade é redenção!
Render-se à dor e ao prazer de aceitar o mundo em nós - e os nós no mundo.
Render-se à dor e ao prazer de aceitar o outro em nós - e os nós no outro.
Espiritualidade é sentir que tal qual a mais velha montanha e a mais frágil borboleta, a montanha não é mais Sagrada que a borboleta só porque esta morrerá antes.
Tal qual a lótus e a lama, uma não é mais Sagrada que a outra apenas porque nos agrada mais a nossos olhos cheios de preconceitos.
Espiritualidade é sentir a Alma no Corpo e o Corpo na Alma, sabendo que são ambos igualmente sagrados.
É perceber que em cada borboleta reside uma montanha. Em cada montanha reside uma borboleta.
A Lama na Lótus. A Lótus na Lama.
Espiritualidade é ouvir no riso de uma criança, o riso do Universo
Ouvir no conselho do velho, o sussurro do Infinito
É perceber que até no cenário mais cinza, poluído e violento - Deus É.
Até naquela certa pessoa... Que é melhor nem pensar muito agora...
Também Deus É.
Mas Espiritualidade também é perceber Deus no sorriso de bom dia, a centímetros de nós, logo de manhã.
O abraço quente na noite fria, o pulsar ofegante a dois, a explosão - também Deus É.
A comida na mesa, o doce do chocolate, o inebriar do vinho - também Deus É.
Você também Deus É.
Eu também Deus Sou.
Somos Um
PERCEBER isso é Despertar.
SENTIR isso é Espiritualidade.
VIVER de acordo com isso é Devoção.
Despertar é enxergar a Grande Mentira do Mundo.
Espiritualidade é sentir a Grande Verdade Suprema.
Devoção é entregar com consciência cada segundo de sua vida a Ela - que você também É.
Quem percebe de Verdade, sente.
Quem sente de verdade, age.
É um caminho sem volta - de volta para casa.
De volta para si mesmo.
Vamos recitar os velhos poemas dos livros velhos uma última vez - e tranformá-los em lenha para nossa fogueira aquecer nossa festa a noite inteira!
Já estamos enjoados dos mesmos poemas tristes!
Vamos transmutar todos os "laboratórios de espiritualidade" em galerias de Arte!
Todos os palanques em palcos!
Todo o ódio e repúdio em Perdão e Amor!
Já basta de mentiras!
Vamos acolher de uma vez por todas a injustiçada Lama, a sujeira, o Ego
E amá-las como são!
Vamos acolher - pelo AMOR - nossos corpos injustiçados por tantas mentiras
Transmutar suas dores, culpas e doenças em prazer, Amor e saúde!
É... Lindo e ao mesmo tempo terrível. Sublime! Divino!
Espiritualidade não é para os que querem ser dominados - nem para os que querem dominar
Não é para os que tem medo das feridas internas - nem orgulho de suas cicatrizes
Não é para os que temem o Amor - nem para os os que só querem o Amor
Não é para os que querem aplausos - nem para os que esperam compaixão alheia
Não é para os que têm nojo do corpo - nem para os que têm obsessão pelo corpo
Não é para os que querem um código seguro de conduta
Não é para os que gostam de ter uma licença para sentirem-se superiores ou inferiores
Não é, acima de todas as coisas, para os que necessitam desesperadamente de previsibilidade e segurança.
Pois se Espiritualidade é Perceber, Sentir e Viver Deus [que é todas as coisas],
É, por definição Perceber, Sentir e Viver a própria fluidez constante do Universo.
É, por definição, dançar a música imprevisível de Deus.
A Unidade Absoluta é eterna transformação - e assim, e somente assim, é Infinita e Eterna.
6.07.2013
Gate Gate Paragate
Aos poucos voltam as memórias de um templo esquecido, de um passado esquecido, de uma vida paralela invisível.
As perguntas que me faço continuam vindo, fluindo, como rio...
As respostas também vão vindo... Pouco a pouco, dissipando as ilusões...
Perguntas que não cabem em palavras, questões pra além do sentimento ou sensação, naquele Universo interior que cada um de nós possui dentro de si e é quase impossível compartilhar...
Respostas igualmente impalpáveis, subjetivas, que se dissipam como fumaça de incenso.
Não se pode pegar, não se pode explicar, nada sustenta nem por nada é sustentado, mas invade-nos o peito, e não sentir não é uma opção.
Se antes as perguntas queimavam por respostas, era porque o coração tinha sede.
Aos poucos o rio volta a fluir, direto da Fonte, fluem as águas que banham meus solos.
Aos poucos, volta o subjetivo selvagem a prosperar dentro de mim.
Antes, nem todas as matas do mundo poderiam matar minha sede de abundancia.
Hoje, a vida floresce mesmo nas mais cinzas paisagens.
E muito mais florescerá. Pois neste mundo, é sempre Primavera.
Mas também Inverno.
Mas também Verão
E Outono.
Primavera pelas flores, amores, a flor que desabrocha sem cessar
Inverno pelo silêncio, ou pelas músicas misteriosas, pela Paz
Verão pelo brilho gentil do Sol, pelo verde das folhas, pela brisa que nos acaricia
Outono pelos frutos que se colhe, pela sabedoria dos Salgueiros, pela serenidade
Minha sede ainda é grande, sim.
Porém eu nada mais posso fazer, uma vez que a água já voltou a jorrar
Agora é esperar seu tempo de abrir caminhos, até que jorre em cascatas abundantes
Já não mais preciso beber desta água tão furiosamente.
Já posso apreciar um pouco mais sua textura, sua pureza, seus encantos
Nesta vida,
Sempre haverá uma pergunta a ser respondida, uma questão que ficou...
Sempre haverá uma sensação a ser explicada, um sentimento estranho...
Mas também sempre haverá alguma resposta a algo que nem sempre foi perguntado
Ou uma compreensão profundo sobre alguma sensação.
Tudo é fluir.
E em última análise, a Vida é a grande pergunta
Que só a Morte poderá responder.
Que bom ter perguntas não respondidas, sentimentos por explicar...
Algo a mais para crescer.
Algum ponto a mais para entender.
Posso escolher desesperar-me em minha sede
Ou render-me a ela enquanto contemplo os mistérios das águas da Fonte e bebo suas águas com gratidão.
E... Bem, eu já cansei de desespero.
As perguntas que me faço continuam vindo, fluindo, como rio...
As respostas também vão vindo... Pouco a pouco, dissipando as ilusões...
Perguntas que não cabem em palavras, questões pra além do sentimento ou sensação, naquele Universo interior que cada um de nós possui dentro de si e é quase impossível compartilhar...
Respostas igualmente impalpáveis, subjetivas, que se dissipam como fumaça de incenso.
Não se pode pegar, não se pode explicar, nada sustenta nem por nada é sustentado, mas invade-nos o peito, e não sentir não é uma opção.
Se antes as perguntas queimavam por respostas, era porque o coração tinha sede.
Aos poucos o rio volta a fluir, direto da Fonte, fluem as águas que banham meus solos.
Aos poucos, volta o subjetivo selvagem a prosperar dentro de mim.
Antes, nem todas as matas do mundo poderiam matar minha sede de abundancia.
Hoje, a vida floresce mesmo nas mais cinzas paisagens.
E muito mais florescerá. Pois neste mundo, é sempre Primavera.
Mas também Inverno.
Mas também Verão
E Outono.
Primavera pelas flores, amores, a flor que desabrocha sem cessar
Inverno pelo silêncio, ou pelas músicas misteriosas, pela Paz
Verão pelo brilho gentil do Sol, pelo verde das folhas, pela brisa que nos acaricia
Outono pelos frutos que se colhe, pela sabedoria dos Salgueiros, pela serenidade
Minha sede ainda é grande, sim.
Porém eu nada mais posso fazer, uma vez que a água já voltou a jorrar
Agora é esperar seu tempo de abrir caminhos, até que jorre em cascatas abundantes
Já não mais preciso beber desta água tão furiosamente.
Já posso apreciar um pouco mais sua textura, sua pureza, seus encantos
Nesta vida,
Sempre haverá uma pergunta a ser respondida, uma questão que ficou...
Sempre haverá uma sensação a ser explicada, um sentimento estranho...
Mas também sempre haverá alguma resposta a algo que nem sempre foi perguntado
Ou uma compreensão profundo sobre alguma sensação.
Tudo é fluir.
E em última análise, a Vida é a grande pergunta
Que só a Morte poderá responder.
Que bom ter perguntas não respondidas, sentimentos por explicar...
Algo a mais para crescer.
Algum ponto a mais para entender.
Posso escolher desesperar-me em minha sede
Ou render-me a ela enquanto contemplo os mistérios das águas da Fonte e bebo suas águas com gratidão.
E... Bem, eu já cansei de desespero.
6.04.2013
O Caldeirão
Eis então que brincando sério de bruxa, descasquei as cenouras. Quebrei os ovos. Ungi com óleo.
Já me bastam de açúcares refinados, brancos, impecáveis. Dá-me o doce mascavo da vida. A força do marrom. A doçura fermentada pela sabedoria.
Já me bastam da farinha branca que alucina o organismo e vicia o corpo. Dá-me o que do que é Integral, do que é entregue, do que é íntegro!
Mistura-se em minha velha tigela tudo obtido até agora, com minha colher de pau.
E entre o romance de tigela e colher de pau, tudo se trans-muta.
Vão-se ovos, cenouras, óleos, mascavos é íntegros.
E o que era dúvida, vira resposta.
O que era incerto, agora é claro.
Ficam as pelotas. Bato com força para que tudo fique homogêneo.
Farinhas e ovos. Açúcares e óleos.
Sonhos e traumas. Bênçãos e maldições.
A Oração é a força que agrega. Força da colher. Força do braço. Do peito. Esquerdo.
A Determinação é a força que dissipa. Força de tigela. Força do braço. Direito.
E entre direita e esquerda, entre colher e tigela, torno-me massa batida.
Homogênea.
Não mais um caldo mole de pensamentos e sentimentos com pelotas de integridade, entrega e sabedoria.
Não mais uma passiva energia vital com pelotas de energia material que me habituei a chamar de "corpo".
Sou então íntegra, entregue, sábia - ainda que doce e forte. Plena.
Sou então alma - ainda que corpo. Inteira.
Porém ainda que plena e inteira, sem fermento eu nada seria.
Apenas uma pitadinha é suficiente.
Não por ser veneno, mas por multiplicar-se dentro de mim.
Não por ser ruim, mas por fazer crescer [e rápido!].
Esparramo-me então na forma previamente escolhida e amaciada pela manteiga e pela farinha íntegra,
E isolo-me do mundo em um gigante útero divino que me aquece.
E este sagrado calor faz vibrar o Amor que me faz crescer.
Ele multiplica-se dentro de mim, faz-me uma colônias de infinitos seres!
Faz de mim casa, mãe, amante e assassina.
Tenho agora duas alternativas: crescer ou morrer..
E então me rendo!
E cresço!
Eis então que vejo que depois de ter quebrado os ovos, ungido os óleos, integrado tudo em um só Ser de plenitude, e rendido-me ao Amor... O que me torno?
Um Ser de um tamanho que desafia as leis da física!
Uma grande, sólida, leve, doce e nutritiva massa unificada - povoada de seres que o Amor semeou dentro de mim!
Agora há já pouco de "mim" - sou infinitos. Sou Infinita!
Descanso então. Cessa o calor. Vá não mais ardo em transformação.
Desaquece o útero que me envolve. É hora de nascer!
Aos poucos, o ar do mundo me envolve. Até que finalmente... Nascimento.
Saio do forno, espalhando perfume e fumaça, que fazem a todos salivar.
E depois de tudo isso, agora que sou tantas, agora que sou infinita, nada mais me resta do que servir-me à mesa.
Sou agora uma oferenda para o Divino - pois quando se é Infinito o finito já não existe mais.
Sussurro-lhe então: olha-me! toca-me! degusta-me! devora-me!
Sacia tua fome do Infinito comigo!
A Dança então continua, com toda a graciosidade da eternidade, enquanto entro dentro de seu beijo, penetro sua garganta, e escorrego para ser mais uma vez transmutada dentro de Ti!
Dentro de mim. Pois tudo Sou.
Bolo, tigela, colher, útero, forma, mesa.
Doçura. Integridade. Sabedoria. Força. Incerteza. Resposta.
A cozinheira. Bruxa. Feiticeira. Poetisa. Degustadora. Devoradora - Deusa!
Já me bastam de açúcares refinados, brancos, impecáveis. Dá-me o doce mascavo da vida. A força do marrom. A doçura fermentada pela sabedoria.
Já me bastam da farinha branca que alucina o organismo e vicia o corpo. Dá-me o que do que é Integral, do que é entregue, do que é íntegro!
Mistura-se em minha velha tigela tudo obtido até agora, com minha colher de pau.
E entre o romance de tigela e colher de pau, tudo se trans-muta.
Vão-se ovos, cenouras, óleos, mascavos é íntegros.
E o que era dúvida, vira resposta.
O que era incerto, agora é claro.
Ficam as pelotas. Bato com força para que tudo fique homogêneo.
Farinhas e ovos. Açúcares e óleos.
Sonhos e traumas. Bênçãos e maldições.
A Oração é a força que agrega. Força da colher. Força do braço. Do peito. Esquerdo.
A Determinação é a força que dissipa. Força de tigela. Força do braço. Direito.
E entre direita e esquerda, entre colher e tigela, torno-me massa batida.
Homogênea.
Não mais um caldo mole de pensamentos e sentimentos com pelotas de integridade, entrega e sabedoria.
Não mais uma passiva energia vital com pelotas de energia material que me habituei a chamar de "corpo".
Sou então íntegra, entregue, sábia - ainda que doce e forte. Plena.
Sou então alma - ainda que corpo. Inteira.
Porém ainda que plena e inteira, sem fermento eu nada seria.
Apenas uma pitadinha é suficiente.
Não por ser veneno, mas por multiplicar-se dentro de mim.
Não por ser ruim, mas por fazer crescer [e rápido!].
Esparramo-me então na forma previamente escolhida e amaciada pela manteiga e pela farinha íntegra,
E isolo-me do mundo em um gigante útero divino que me aquece.
E este sagrado calor faz vibrar o Amor que me faz crescer.
Ele multiplica-se dentro de mim, faz-me uma colônias de infinitos seres!
Faz de mim casa, mãe, amante e assassina.
Tenho agora duas alternativas: crescer ou morrer..
E então me rendo!
E cresço!
Eis então que vejo que depois de ter quebrado os ovos, ungido os óleos, integrado tudo em um só Ser de plenitude, e rendido-me ao Amor... O que me torno?
Um Ser de um tamanho que desafia as leis da física!
Uma grande, sólida, leve, doce e nutritiva massa unificada - povoada de seres que o Amor semeou dentro de mim!
Agora há já pouco de "mim" - sou infinitos. Sou Infinita!
Descanso então. Cessa o calor. Vá não mais ardo em transformação.
Desaquece o útero que me envolve. É hora de nascer!
Aos poucos, o ar do mundo me envolve. Até que finalmente... Nascimento.
Saio do forno, espalhando perfume e fumaça, que fazem a todos salivar.
E depois de tudo isso, agora que sou tantas, agora que sou infinita, nada mais me resta do que servir-me à mesa.
Sou agora uma oferenda para o Divino - pois quando se é Infinito o finito já não existe mais.
Sussurro-lhe então: olha-me! toca-me! degusta-me! devora-me!
Sacia tua fome do Infinito comigo!
A Dança então continua, com toda a graciosidade da eternidade, enquanto entro dentro de seu beijo, penetro sua garganta, e escorrego para ser mais uma vez transmutada dentro de Ti!
Dentro de mim. Pois tudo Sou.
Bolo, tigela, colher, útero, forma, mesa.
Doçura. Integridade. Sabedoria. Força. Incerteza. Resposta.
A cozinheira. Bruxa. Feiticeira. Poetisa. Degustadora. Devoradora - Deusa!
Foi então...
"Foi então, num ato de mais puro Amor e apaixonamento, que o Criador dotou a Criação do poder de criar!
Pois percebendo seu êxtase em criar, e pelo seu Amor pela Criação, não poderia ter feito outra coisa que não ter doado essa capacidade aos seus amados."
- Jessika Gomes
Pois percebendo seu êxtase em criar, e pelo seu Amor pela Criação, não poderia ter feito outra coisa que não ter doado essa capacidade aos seus amados."
- Jessika Gomes
6.01.2013
A Ousadia Sagrada
"Eis que Deus cometeu a mais obscena das ousadias: A Vida.
Pois não seria a vida uma grande ousadia cósmica?
O coração que ousa pulsar no silêncio...?
A luz que ousa brilhar na escuridão...?
O verbo que ousou tornar-se carne...?
O Um que ousou tornar-se Dois só pelo prazer e dor de voltar a ser Um...?
Aquilo que ousou Manifestar-se em meio ao Imanifesto...?
Ah! Sem dúvida que sim! Deus há de ser um obsceno e irreverente Criador!
Sem o poder da Ousadia, nada haveria se não um grande Vazio...
Sem Ousadia, não há Criação!
Sem Ousadia, não há Destruição!
E sem Criação e Destruição, nada há.
Ousemos, pois!
Como Deuses!
Como Deusas!
Que cada respirar, que cada ação, que cada sentir carregue em si um toque dessa Ousadia Divina!
Pois não há ousadia maior para o ser humano que render-se ao sussurro do Sagrado em seu coração!
Tal qual a gota d'água que rende-se ao Oceano, ousando assim conter todo o Oceano dentro de si, mesmo sabendo que é gota!
Tal qual o amante ousa amar antes de mais nada.
E não seria o Amor a mais profunda ousadia da Vida?
Não seria o Amor a ousadia da maior das ousadias?
Pois foi porque Deus ousou Amar que houve a ousadia de Manifestar o Imanifesto!
Eis que então no epicentro do terremoto das Ousadias Divinas, reside a mais cristalina pureza: o Amor.
O argumento perante ao qual Tudo se cala: Deus. Amor.
Ousemos então!
O Amor já É.
Deus já É.
Ousar é preciso!"
- Jessika Gomes
Pois não seria a vida uma grande ousadia cósmica?
O coração que ousa pulsar no silêncio...?
A luz que ousa brilhar na escuridão...?
O verbo que ousou tornar-se carne...?
O Um que ousou tornar-se Dois só pelo prazer e dor de voltar a ser Um...?
Aquilo que ousou Manifestar-se em meio ao Imanifesto...?
Ah! Sem dúvida que sim! Deus há de ser um obsceno e irreverente Criador!
Sem o poder da Ousadia, nada haveria se não um grande Vazio...
Sem Ousadia, não há Criação!
Sem Ousadia, não há Destruição!
E sem Criação e Destruição, nada há.
Ousemos, pois!
Como Deuses!
Como Deusas!
Que cada respirar, que cada ação, que cada sentir carregue em si um toque dessa Ousadia Divina!
Pois não há ousadia maior para o ser humano que render-se ao sussurro do Sagrado em seu coração!
Tal qual a gota d'água que rende-se ao Oceano, ousando assim conter todo o Oceano dentro de si, mesmo sabendo que é gota!
Tal qual o amante ousa amar antes de mais nada.
E não seria o Amor a mais profunda ousadia da Vida?
Não seria o Amor a ousadia da maior das ousadias?
Pois foi porque Deus ousou Amar que houve a ousadia de Manifestar o Imanifesto!
Eis que então no epicentro do terremoto das Ousadias Divinas, reside a mais cristalina pureza: o Amor.
O argumento perante ao qual Tudo se cala: Deus. Amor.
Ousemos então!
O Amor já É.
Deus já É.
Ousar é preciso!"
- Jessika Gomes
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