6.04.2013

O Caldeirão

Eis então que brincando sério de bruxa, descasquei as cenouras. Quebrei os ovos. Ungi com óleo.
Já me bastam de açúcares refinados, brancos, impecáveis. Dá-me o doce mascavo da vida. A força do marrom. A doçura fermentada pela sabedoria.
Já me bastam da farinha branca que alucina o organismo e vicia o corpo. Dá-me o que do que é Integral, do que é entregue, do que é íntegro!
Mistura-se em minha velha tigela tudo obtido até agora, com minha colher de pau.
E entre o romance de tigela e colher de pau, tudo se trans-muta.
Vão-se ovos, cenouras, óleos, mascavos é íntegros.

E o que era dúvida, vira resposta.
O que era incerto, agora é claro.

Ficam as pelotas. Bato com força para que tudo fique homogêneo.
Farinhas e ovos. Açúcares e óleos.
Sonhos e traumas. Bênçãos e maldições.
A Oração é a força que agrega. Força da colher. Força do braço. Do peito. Esquerdo.
A Determinação é a força que dissipa. Força de tigela. Força do braço. Direito.
E entre direita e esquerda, entre colher e tigela, torno-me massa batida.
Homogênea.
Não mais um caldo mole de pensamentos e sentimentos com pelotas de integridade, entrega e sabedoria.
Não mais uma passiva energia vital com pelotas de energia material que me habituei a chamar de "corpo".

Sou então íntegra, entregue, sábia - ainda que doce e forte. Plena.
Sou então alma - ainda que corpo. Inteira.
Porém ainda que plena e inteira, sem fermento eu nada seria.
Apenas uma pitadinha é suficiente.
Não por ser veneno, mas por multiplicar-se dentro de mim.
Não por ser ruim, mas por fazer crescer [e rápido!].

Esparramo-me então na forma previamente escolhida e amaciada pela manteiga e pela farinha íntegra,
E isolo-me do mundo em um gigante útero divino que me aquece.
E este sagrado calor faz vibrar o Amor que me faz crescer.
Ele multiplica-se dentro de mim, faz-me uma colônias de infinitos seres!
Faz de mim casa, mãe, amante e assassina.

Tenho agora duas alternativas: crescer ou morrer..
E então me rendo!
E cresço!

Eis então que vejo que depois de ter quebrado os ovos, ungido os óleos, integrado tudo em um só Ser de plenitude, e rendido-me ao Amor... O que me torno?
Um Ser de um tamanho que desafia as leis da física!
Uma grande, sólida, leve, doce e nutritiva massa unificada - povoada de seres que o Amor semeou dentro de mim!
Agora há já pouco de "mim" - sou infinitos. Sou Infinita!
Descanso então. Cessa o calor. Vá não mais ardo em transformação.
Desaquece o útero que me envolve. É hora de nascer!

Aos poucos, o ar do mundo me envolve. Até que finalmente... Nascimento.
Saio do forno, espalhando perfume e fumaça, que fazem a todos salivar.
E depois de tudo isso, agora que sou tantas, agora que sou infinita, nada mais me resta do que servir-me à mesa.

Sou agora uma oferenda para o Divino - pois quando se é Infinito o finito já não existe mais.
Sussurro-lhe então: olha-me! toca-me! degusta-me! devora-me!
Sacia tua fome do Infinito comigo!
A Dança então continua, com toda a graciosidade da eternidade, enquanto entro dentro de seu beijo, penetro sua garganta, e escorrego para ser mais uma vez transmutada dentro de Ti!
Dentro de mim. Pois tudo Sou.
Bolo, tigela, colher, útero, forma, mesa.
Doçura. Integridade. Sabedoria. Força. Incerteza. Resposta.
A cozinheira. Bruxa. Feiticeira. Poetisa. Degustadora. Devoradora - Deusa!

Nenhum comentário:

Postar um comentário