6.29.2013

A Cama

O deitar-se. Devaniar-se pelo espaço e pelo tempo sem destino nem hora pra voltar... A vida seguindo seu fluxo natural pelo entrar e sair do ar, o vai e vem que impulsiona meus devaneios. Aqui, de meu habitat natural, vago pelos pensamentos que o corpo me traz. Re-conheço-me. As mãos deslizam pela pele como os rios fluem para o mar. A vida transforma-se a cada gesto, a cada milímetro, cada ponto do corpo, uma história pra contar. Cada ar que entra é diferente do ar que sai e que nunca mais será o mesmo. E por entre lembranças e esquecimentos, o corpo chama por suas vontades. Minha mente, meu império, onde tudo se torna possível. Meus pensamentos deslizam até desaguarem nele, o homem de meus delírios, o realizador de minhas fantasias, aquele pelo qual me perco - e me encontro. Fantasias e desejos já conhecidos e vividos... Momentos que tão profundamente me marcaram que todas as vezes que me olho, lá estão suas marcas, suas palavras escritas na língua impronunciável do corpo. Amo cada homem que já esteve comigo em Verdade. Amo cada homem que um dia estará. Tudo está aqui. Registrado, tatuado para além do tempo. Todos os amores do porvir, todos os amores já idos. E se antes culpava-me por minha fome insaciável, que parecia que jamais poderia ser saciada, hoje eu a reverencio. Hoje eu a abraço em meu Ser. Que venham os vinhos do Amor até mim! Que fluam os que eu já experimento com os lábios! Cada gota que me vem obriga-me a pedir por mais... A fome que nunca sacia não é a fome do outro, não é a sede de consumir, aniquilando. Mas sim o desejo tão visceral de absorver e de ser absorvida. De lambuzar-se, deliciar-se, extasiar-se de um alimento que não se desfaz na boca com a saliva. Ou será que desfaz e se reconstrói antes que percebamos?

Dessa fome que sinto, pouca coisa escapa. Fome de paixão, de calor, de beijo, massagem, colo, cafuné, soneca durante a tarde, dormir de conchinha. Em meu império de devaneios, não há distinção entre o profano e o sagrado, entre o cuidado e o sexo, entre o proibido e o possível, entre eu e o Universo, com todos os seus seres. Aqui, neste império, eu posso. Aqui, eu sou.  E é então que uma grande compreensão pousa em meu coração. Pois houve um tempo, que me parece cada vez mais fora do tempo, em que eu negava minhas fomes, negava-me meu império de devaneios, negava-me o profano, o sagrado, o certo e o errado. Houve um tempo em que eu era pura negação. Compreendo então que da grande solidão que sinto, da irremediável sede do outro, muito era apenas fome de mim mesma. Saudades de mim. Pois aqui entre os lençóis, sozinha, na penumbra, onde desvela-se um Universo interno infinito como o externo, eu posso ser o que sou em Verdade. Sem isso, sou só metade. Vagando pelas ruas como um zumbi, buscando em outras metades zumbis algo que me complete e preencha. E nunca encontro é claro...

Mas isso agora é passado... Será que um dia realmente foi? Minhas memórias de cérebro contram esta história que meu corpo desmente. Na pele sempre foi hoje. E hoje eu sempre fui inteira. Metade este devaneio. Metade corpo. Uma parte lá outra cá. Unidas como dois amantes apaixonados. Apaixono-me por mim mesma. Em breve, estarei trocando poemas, beijos até que me renda totalmente. Eu sei. Eu sinto. Eu sou. Em breve, descobrirei até onde eu posso me preencher comigo mesma, e até onde o toque do outro me é fome que pode matar. Até lá, afastem-se as outras peles. Minha pele precisa de mim. E aos poucos, a cada batida do coração, a Alma vai penetrando o corpo. Um divino e conhecido líquido vai escorrendo pela minha garganta. Eu. Engolida por mim. Isso é possível? Pra razão, eu não sei. Mas hoje eu sou corpo, o corpo é sempre hoje, e hoje isso não é possível mas acontece com tanta realidade quanto eu mesma. O fluxo não para. Continua indefinidamente. Mais e mais, cada vez mais fundo, cada vez mais preenchida. Qual será o tamanho da Alma? Teria eu tamanho dentro de mim para comportá-la? Teria eu desejo de mim suficiente para acomodá-la? Teria eu tanta libido a ponto de ser penetrada por algo Infinito em puro prazer? Não sei. Sei que hoje quero mais. E mais. E mais. Em minha mente, imagens de todos os que me despertam o desejo. Comem-me, sugam-me, lambuzam-me deles, mas eu não me engano. Não são eles que me devoram, mas sim eu mesma, fantasiada deles. Ainda assim, são eles. Ainda assim, sou eu. Como Alma, sou infinita, sou tudo, estou em qualquer lugar, em qualquer tempo. Eu sei. Eu sinto.

Findam-se as fronteiras. Findam-se as divisões. Dissipam-se as peles. Desfazendo-se como fumaça de incenso. Já não sei mais onde começo ou acabo. Ainda assim, devoro-me. Permito-me. Provo-me. Sem medos. Sem culpas. Sem restrições. Eu sou pura permissão. Eu sou pura libido sendo saciada em sua sede insaciável. Eu sou fluxo de escorre no não-tempo. Eu sou o beijo do amado na língua e a língua do amado. Eu sou o cafuné no dia frio e o puxar obsceno dos cabelos. Eu sou a expansão do Universo, e a contração do abdômen em orgasmo. Eu sou a vida que desabrocha, e até a vida que se esvai... Como sou grande! Como sou eterna! Como senti saudades de mim! Como a mim mesma sem início nem fim.

Então as palavras não alcançam mais a sensação que se manifesta. As músicas podem recordar-nos vagamente dela. Que nunca é igual, que nunca é a mesma, mas que nos canta, nos chama constantemente não importa aonde estivermos. Eu sei. Eu sinto.
E quando volto, nunca sei como nem quando nem onde, faço-me nascer de novo. Nada nunca mais é igual. Como se mais um véu fosse retirado de meus olhos e nunca mais fosse possível voltar. Toco minhas próprias mãos. Meu próprio rosto. Beijo-me com terno amor. Estou agora um véu mais próxima de mim mesma. E a cada vez que minha fome me obrigar a ousar voltar a estar dentro de mim mesma, mais um véu será retirado. Eu sei. Eu sinto.

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