[...questionamentos casuais de mais um pré-Natal...]
Sim, eu reverencio as faces femininas do Divino.
Mas eu não sou conivente com a noção de 'feminilidade' imposta pelo patriarcado.
No meu altar não coube um Feminino obediente, socialmente ajustado, politicamente alienado, ou economicamente dependente.
Sem questionar o que entendemos por "Feminino" teremos uma visão superficial, distorcida e maculada do Sagrado.
Ao invés de deixar que nossas noções culturais tão asquerosas sobre o que é "feminino" se projetem no Sagrado, façamos o contrário.
Deixemos que a energia feminina primordial pura se revele para nós, em nosso íntimo, de dentro pra fora. E a partir disso contemplar essa essência e qual o tamanho da distorção que a cultura impõe.
E pode ser que nada venha.
Pode ser que não exista, em essência, em pureza, em verdade, algo que se possa chamar de "Sagrado Feminino" - e isso seja tudo mera construção social na nossa psique.
Estamos preparadas pra isso?
Ou pode ser que esse "Sagrado Feminino" tenha muito pouco de "virgem" e muito de "Maria". Essas que a gente encontra por aí, todo dia... Que Ela esteja em formas comuns, que seja tão perfeita que, em nossa ignorâncias, julguemos-a imperfeita. Que seja moralmente questionável ou socialmente condenável.
Estamos preparadas pra isso?
Ou pode ser o contrário também. Algo tão belo e arrebatador que tudo que vier depois de tão Visão seja completamente sem brilho, sem cor, sem sabor - não fosse por uma sutil sensação de que por detrás das aparências, é Ela que está ali. E passemos o resto da vida nos dedicando às Artes para afastar a loucura e tentar desesperadamente expressar tamanha Beleza - sem nunca conseguirmos chegar nem aos pés do que sentimos.
Estamos preparadas pra isso?
E pode ser ainda pior: que ela dê sinais de que existe de fato, mas decida nunca se revelar por completo. E não haver disciplina espiritual que a convença. Não quer, e pronto.
Estamos preparadas pra isso?
Estamos - verdadeiramente - preparadas para Ela?
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