Não tem cineminha.
Não tem mãozinha dada no shopping.
Não tem 'apresentar pra família'
Não tem fotinho de casal no Facebook.
Não tem direito social a crise de ciúmes
Não dá pra ficar pro almoço
Se engravidar, é aborto.
O tempo disponível é o tempo roubado
O lugar disponível é o lugar secreto
Do Mistério
Do imprevisível
Adrenalina
Serotonina
Mas não muita Oxitocina
A furtividade é a beleza e o incômodo
O desejo é a separação e é o encontro
O papel da Amante
É tão arquetípico quanto o da Esposa
Tem sua Luz
Tem sua Sombra
Tem sua Dor
Tem seu Prazer
E é o que é
Nada mais
Nada menos
Tantas de nós já encarnamos esse arquétipo
Essa máscara por debaixo da máscara
Em tantas ocasiões diferentes
E encarnaremos ainda muito mais vezes
Amor é coisa que não se mede
Sexo é coisa que não se reprime
Nada disso é coisa que se controla
O que separa A Esposa de A Amante
é função em sociedade patriarcal
é pura ilusão em missa dominical
Todas nós, quando nuas,
Somos as duas
Somos parceira leal e somos putas
Independente de status conjugal
Independente de nossas negações
Independente de nossas frustrações
Espiritualmente
somos todas iguais
em nossa Divindade
em nossa Profanidade
E nossa Dor
E em nossa Alegria
Em nosso orgulho
e em nossa des-importância
Quem me dera um mundo
Em que Amante e Esposa
Se reconhecessem uma na outra
E se amassem em perfeita cumplicadade
Como irmãs
Como lésbicas
Ou como conspiradoras
De uma mesma rebelião matriarcal
Fêmea
Fatal
e Furiosa
Que fizessem dos esposos
com os chifres à mostra
Devotos sinceros
de nossa multiplicidade
Tu que hoje está Esposa
Quanto da Amante rejeita em Ti?
Tu que hoje está Amante
Quando da Esposa rejeita em Ti?
Tiremos o falo do centro
E fujamos nós, fêmeas,
Amor - e Mistério - adentro!
- Satya Devi
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