2.20.2016

CONTO IN-ESPERADO DE UMA SEXTA À NOITE



Há quatro dias atrás, foi o primeiro dia de Lua Vermelha.
No dia antes de ontem, foi o dia do fogo que queima o crânio
No dia de ontem, foi o dia da purificação que lava o tronco
E hoje foi, em Verdade, um novo dia.

Comecei o novo dia limpando a casa
Coloquei as coisas no lugar
Abri espaço, limpei o chão com água
Deixei o ar entrar

Hoje eu cuidei do corpo
Hidratei os cabelos
Tomei um banho
Cuidei dos pêlos

E então me alimentei
Liguei a uma amada amiga
E me confessei
E ouvi suas confissões

Não foi preciso absolver ou perdoar
Nem punir, nem premiar
Naquele espaço-tempo,
Não coube, se quer, o julgar.

E lá estava eu, toda pronta
Toda linda, toda solta,
Pra alguma coisa que eu não dizia
E minha mente fazia de conta que não sabia

E quando entediei-me da vida
Deitei-me na cama, convencida,
De que já se acabava o dia
Que havia acabado de começar

Estiquei o braço, despretenciosa
Alcancei o livro certo, na hora certa
E lá estava Ela, toda aberta
Esperando por mim, toda esbelta

E as linhas foram traduzidas
E o silêncio se fez canção
E as canções se fizeram rimas
Quando Ela tocou meu coração

E onde havia morte
Agora há vida
E onde havia seca
Agora há fonte

Onde havia dúvida
Agora há silêncio
Onde havia pergunta
Agora há sentimento

Então eu soube, como se lembrasse
Que já sabia que A encontraria, se aproveitasse
O sutil chamado irresistível em seu canto
Que atrai ouvintes, em silencio e pranto

Ao seu inevitável encontro
E eu nem se quer me espanto
Apenas me permito, em assombro,
Reconhecer-Te nas linhas do (in)esperado conto

Devi armou-me uma armadilha
E eu, sem vergonha, caí aturdida
No instante do susto, quando a mente se trincou
Veio Devi pelas águas, e a mim, transbordou.

- Satya Devi

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