9.14.2014

Sobre silêncio e palavras

Sobre silêncio e palavras - reflexões sobre um dia e meio em voto de silêncio.

Um dia e meio é muito pouco para dizer qualquer coisa sobre esse voto num nível mais profundo. Mas suficiente para ter uma noção básica de seus efeitos ao menos iniciais. Como um mergulho em alto mar, em que vamos só alguns metros abaixo d'água...

Já há bastante tempo venho estudando a Palavra e o Silêncio. Quanto é possível falar com o corpo, com o olhar! Na casa, minhas companheiras de morada e eu resolvíamos quase tudo apenas com o olhar. Tudo o que importava de verdade.

A palavra acaba sendo uma válvula de escape da consciência. Enchemos nossa cabeça de asneiras, de superficialidades e banalidades como um vício. Como esperar algo diferente de uma sociedade que não cultiva seu íntimo com Amor?

Mas de tudo que fica é esse poder que a Palavra tem de 'formatar' o pensamento. Se não encontramos palavras pra algo, esse algo corre o risco de deixar de ser notado na consciência. Assim, tendemos a notar apenas o que conhecemos palavras pra expressar. No voto de silêncio, a lógica se inverte. A palavra não mais é necessária, a consciência fica livre para experienciar o mundo de um outro ângulo, captando coisas mais sutis - e mais reais do que o bla bla bla do dia a dia.

Sinto também que a palavra acaba sendo usada como um meio de nos identificarmos e afirmarmos individualmente. O silêncio que brota de mim é - ao menos aparentemente - o mesmo que brota de você. Já a sua voz é diferente da minha. Portanto, a voz, a palavra, acaba sendo essa forma de "se fazer/sentir existente" perante o outro ao mesmo tempo que "fazer-se à parte" do outro. Olha só... Se Comunicação é "tornar algo comum", podemos dizer que falar depende necessariamente de um "tornar-se separado". Quando muitos em coletividade fazem voto de silêncio num mesmo espaço, é impressionante como os olhares e os corpos "falam" uma linguagem própria, que é esquecida com o uso indiscrimidado das palavras. Assim como em uma experiência de profunda intimidade, quando dois [ou três ou mais] se fazem Um, ou uma experiência de profunda transcendência, a comunicação verbal é absolutamente desnecessária. Seja num momento de Amor, de Dança, ou qualquer outra situação de experiência de transcendência do "eu". Ainda assim, os corpos bailam, ou vozes cantam, ou tudo junto... Esse é o momento em que Comunicação dá lugar a Expressão. Não há o que "tornar comum", porque não há separação. Mas ainda assim, há algo a expressar, algo a transbordar. Nem que seja simplesmente Silêncio.

Continuo uma grande fã e estudiosa da Palavra e do Silêncio. Tenho estudado este casal divino há meses [ou deveria dizer que tenho sido estudada por eles?] e seguirei estudando. Fica o desejo de em breve fazer um voto de silêncio mais longo e preparado. De preferência longe de qualquer palavra escrita/lida também. As leituras 'aliviam' um pouco nosso vício por palavras. Já que o silêncio pode às vezes ser um tanto desesperador...

A experiência reforça minha sensação de que a Palavra é ao mesmo tempo nossa prisão e nossa libertação.
De que o Silêncio pode ser nossa perdição ou nossa salvação.
Como duas espadas afiadas nas mãos de uma Deusa.
E já dizia a Sábia Senhora de Santana: "que a faca que corta não dá taio sem dor".

Gratidão!

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