9.04.2014

E foi então que eu olhei pra Ela.
Ela era Eu. Eu era Ela.
Ela sou Eu. Eu Sou Ela.
Vasta. Infinita. Plena de energia e vida.
Sentindo o impulso de doar-se
Tão forte quanto o de respirar
Eu doei.
Eu doí.
E respirei.

E de tão absolutamente Vasta que era
Exalei meu próprio ser para o lado de fora
No prazer inexplicável de expulsar-me de mim

Esvaziei-me de mim mesma
Espalhando-me entre os que me chamavam
Até o total esquecimento

Até que...
Vazio.
Somos todos iguais em Vazio.

E então sentindo o impulso de retornar
Tão forte quanto o impulso de inspirar
Eu retornei
Eu tornei
E respirei.

No prazer infinito e inexplicável de retornar a mim mesma
Eu gozei a Plenitude de Ser novamente
Inteira.

E então eu lembrei
E chorei
E respirei

Pois quando penso que esqueço
Lembro-me que sempre sei.
Pois é preciso esvaziar-se
E é preciso retornar

Por anos a fio
esvaziei-me em outros olhos
outros braços outros corpos
Momentos de expulsar-me de mim
no gozo dos que me recebiam

Por anos a fio
Inspirei a mim mesma de olhos fechados
Abracei ao meu próprio corpo
Momentos de retornar a mim
no desespero dos que tentavam me manter

Eu realmente sinto muito.
Não posso evitar.
É um impulso
como respirar

Da mesma forma que vou
E esvazio-me de mim,
eu volto.
Da mesma forma que volto
E transbordo de mim,
eu vou.
De novo...
E de novo...
E de novo...

E a cada vez que volto
Levo um pouco dos que fui
E deixo um pouco de mim
Por onde passei

Irremediável é a dor
de transbordar-me
onde não encontro braços para receber-me
ou de retornar e mim mesma
em braços que não me deixam partir

Mas compreendo
Que dos braços que se retraem
Ou dos braços que se abrem
Não podem evitar
É um impulso que sentem
Como respirar

Se um dia enlaçam-se os corpos
Fundem-se os olhares
E os braços se abraçam
É pela graça da Suprema Dádiva
Que é doar-se ao mesmo tempo

Quão improvável não é
Que ambos estejam ao mesmo tempo
Doando e recebendo
E no Infinito do cosmos
possam os corpos
no momento exato
se encontrar?

E eu que um dia fui puro Impulso
Hoje sou Rendição
Rendendo-me ao ir e ao voltar
Ao retrair e ao transbordar
Já entendi
Que não há contra o que lutar
Se não contra mim mesma

E se fizer-se o Impulso Divino
Podemos render-nos unidos
Aos Divinos Impulsos
De inspirar e respirar
Retrair e Transbordar
Sair e Entrar

Até que cesse o Divino Impulso
ou o pulso.


Afinal,
Ela era Eu. Eu era Ela.
Ela sou Eu. Eu Sou Ela.

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