8.11.2013

O Vestido

Ganho de presente de aniversário dos seus pais, um vestido-bata indiano [que vc sempre achou lindo, mas nunca teve coragem de comprar por falta de coragem de usar] e nunca me senti tão bem numa roupa antes.
Dessa vez eles não brigaram comigo porque minha roupa era simples demais, esquisita demais, ou estava suja demais, ou usada demais.
Dessa vez, com a mesma naturalidade que eles compraram roupas apenas pretas pra mim durante 7 anos, compraram um vestido indiano roxo ontem.
Dessa vez, minha mãe não se importou se era algo dentro ou fora de moda. Importou-se apenas que era elegante - e fácil de lavar, porque eu sou péssima nisso.
Dessa vez, pela primeira vez, ela quis que eu usasse algo totalmente fora do esquadro. Totalmente eu.
Mais do que me aceitar - meus pais me compreendiam!
Eles, da sua própria forma de saber, sabem quem eu sou.

A prova estada ali. Estampada em roxo, preto e amarelo. Em flores, decotes e tecidos. 
Meu corpo, meu rosto, meus contornos pareciam ter sido feitos pra vestidos como aquele. Sem amarras - e cheios de formas. Cheios de cores. Cheios de flores.
Dava quase para sentir o cheiro do incenso ao meu redor, ou ouvir os passos pelos corredores de algum templo perdido no tempo e no espaço.
Por um instante todos ali fomos transportados para algum lugar assim...
Um lugar onde eram cabíveis vestidos como aquele...
Deixamos para trás um momento e um lugar de opressão e tirania do quadrado, do cinza, do duro e do artificial
...E nunca mais voltamos.
Calou-se então em mim - talvez para nunca mais falar - a voz que dizia que vestidos indianos, longos, roxos e esvoaçantes, não são aceitáveis de se vestir no dia-a-dia.
Calou-se então mim - quem sabe pra nunca mais falar - a voz que dizia que ser quem eu sou não é aceitável no dia-a-dia.

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