A vida continua dando seus olés. Continuam virando as marés.
Minha jangada - já sem remo - continua sendo jogada de um lado para o outro.
Todos nós uma hora ou outra seremos tragados pelas ondas
Sabemos que nosso inevitável destino nesses sobes e desces é o afogamento.
Mas alguma coisa agora está diferente.
Houve um dia em que eu desisti de remar
Ofereci meus remos em oferenda ao Mar
E uni as mãos em prece.
E não foi pela minha sobrevivência
Nem por um bom destino
que orei.
Imagino que deva ter sido ali
Que alguma coisa mudou.
O fato é que hoje, especificamente hoje,
a maré está excepcionalmente intensa
As ondas, excepcionalmente imensas
E eu acho que perdi minha jangada
Digo que acho porque já não sei dizer se realmente a tive
Ou se sempre este azul salgado sempre esteve ao redor
Apenas eu que não percebia
O que poderia ter sido meu corpo contra um rochedo
Minha jangada jogada contra um iceberg
Não foi.
Mas sim uma nova sensação. Intensa. Imensa.
Dos pés à cabeça.
Algo que não era de todo novidade
Ainda que indecifrável aos sentidos
Tal qual criança corajosa
Que pula de uma só vez na piscina gelada
E por alguns segundos - a mente se pausa
Os sentidos nos inundam com intensidade indescritível
E a mente ainda não deu seu parecer ou sua explicação para tanta intensidade
É nesse momento de suspensão que agora estou
Como tantas outras vezes estive
Mas dessa vez, percebo que talvez não precise sair dele
Dessa vez, vejo tão claro dentro de mim
Que é algo em mim que se "ativa" e profere julgamento
Algo que se "ativa" e dispara a explicar
E dispara a julgar, a se desesperar, a gozar de alegria, a doer-se de desolamento
Dessa vez, eu não tenho nenhum comentário a fazer
Se é bom, se é ruim
Se é triste, se é feliz
Se é certo, se é errado
Sagrado ou profano
Ou melhor: poderia dizer que é tudo isso - e não estaria sendo desonesta.
Dessa vez, por algum motivo que ainda não sei dizer,
Sinto que eu poderia escolher um dos caminhos, quanto ambos
...ou nenhum.
Por que eu teria que achar algo que é inevitável a mim que aconteça?
Por que eu deveria ter que dar um parecer mental sobre acontecimentos que independem da minha vontade ou escolha?
Por que eu não poderia, tal qual a criança que se joga na piscina gelada, apenas ficar com a sensação pura e cristalina da intensidade brutal da água gelada em toda a minha pele de repente?
Não. Eu não escolherei nenhuma reação.
No momento, todas elas brotam igualmente de dentro de mim
E cuido de todas elas com igual atenção e carinho
E todas são igualmente vazias e falsas
E igualmente viscerais e verdadeiras.
Ao longe, ainda posso ver meu corpo triturado contra o rochedo
E minha jangada destruída pelo iceberg
Mas isso tudo mais me parece um sonho
Afinal, esse infinito azul parece que sempre aqui
Dentro de mim
E eu dentro dele
Minhas sensações não mentem.
Eu sempre estive aqui.
Mas mesmo que não tenha estado
Ainda assim sempre estive
Sensações não mentem.
Não se enganam.
Não se vão.
Ainda que eu veja com meus próprios olhos
Meu corpo inerte afundando em algum ponto do Oceano
E minha jangada estilhaçada em algum lugar
Ou melhor dizendo
Vejo meu corpo afundando em múltiplos pontos do Oceano
E minha jangada estilhaçada em vários lugares
Todos eles, igualmente mentira
Todos eles, igualmente verdade
Mas tem uma Verdade que realmente não se vai
Que não tem mentira que lhe faça oposição
A única coisa que não mente é a sensação
Não conclui. Não pensa. Não julga.
Não explica. Não questiona.
Apenas chega e nos invade
Nos inunda
Intensa.
Imensa.
Como onda de Mar
Nos jogando contra o rochedo
E se um dia voltar eu a pensar
A questionar, a concluir, a indagar
Que sejam conclusões honestas
Do tipo que eu não possa escolher entre tê-las ou não
Do tipo que não dependa de como eu me posicione a respeito
Que me sejam certezas das quais eu não possa fugir
Das quais eu não possa pensar ou sentir diferente.
Que me nocauteiem de certeza, de mistério, de arrepio
Que sejam inexplicáveis!
Que sejam ilógicas!
Que sejam indescritíveis!
E não que fiquem me jogando entre múltiplas certezas possíveis
Que nada dizem ao meu Coração e a minha Alma
Apenas me inquietam a mente, tiram-me o sono, e o prazer de sentar-me em silêncio.
Que sejam como Paixão que arrebata
Como presa que vira caça
Como trovão que clareia
Como onda que arrasta
Pois se minhas vãs conclusões
Nem mesmo me façam rendida e entregue
Indefesa perante tanta clareza
Que nem se deem ao trabalho de surgir
Prefiro minhas sensações translúcidas
Meus sentimentos inequívocos
Ilógicos
Incisivos
Cristalinos
Prefiro esse azul do céu que cega
Num impacto de tsunami
Que nada sabe
Nada conclui
Nada pergunta
Mas tudo ordena
Tudo sente
Tudo é
Infinito
Intenso
Imenso
Como onda de mar.
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