3.29.2014

O Rapé e o Feminino



O mundo ocidental-industrial que vivemos hoje é regido por uma noção mentirosa de que “mais é sempre melhor que menos”, de que “tempo é dinheiro”, de “razão versus emoção” e tantas outras dicotomias em que sempre algo é “superior” ao seu oposto. Historicamente, essa noção veio dentro de um “pacote social” chamado patriarcado. Dentro desse pacote, é claro, a noção de superioridade do homem em relaçao à mulher, brancos em relação a negros, invasores europeus em relação a nativos americanos e assim por diante.

Não entrarei em polêmicas a respeito, mas o fato é que tudo que é relacionado ao feminino foi marginalizado, criminalizado, ridicularizado ou esquecido. Isso está em todos os nossos hábitos diários justamente por essas noções que postei no início do texto: “mais é sempre melhor que menos”, por exemplo. O feminino saudável não possui tais características. O Feminino trabalha com ciclos, com o “ponto certo”, com a “dose ideal”.  A mãe que amamenta sabe a temperatura exata do leite para seu filho e a quantidade certa de cobertas para mantê-lo quentinho sem sufocá-lo. A mulher menstruada, se estiver atenta, poderá perceber que açúcar de menos pode deixá-la nervosa e açúcar demais pode deixá-la depressiva nesse período. A cozinheira sabe que uma pequena dose de pimenta pode fazer toda a diferença num prato – seja para torná-lo maravilhoso ou acabar com ele. A benzedeira sabe que a diferença entre o veneno e o remédio está na dose.

Que tal lançar este olhar feminino sobre o rapé?
Um olhar profundo, holístico e 360 graus?

Vamos lá: O que é o rapé? O rapé, fisicamente falando, é um grande aglomerado de folhas medicinais, às vezes queimadas e masseradas artesanalmente por horas até ficar aquele pozinho fininho que conhecemos. Ele viaja centenas, as vezes, milhares de km até chegar em nossas mãos. Portanto ele envolve coisas muito importantes: primeiramente, o trabalho árduo das pessoas que o fizeram. Segundo, tooooodas as plantas que contribuíram para aquele tubinho e que cederam suas folhas para nós e o solo que as sustentou, são energia e matéria condensadas para fazer esta medicina sagrada. Quantas folhas e horas de trabalho não são necessárias para cada sopro que damos...?  São reflexões importantes que os rapeleiros de verdade deveriam se fazer. Ter uma consciencia ambiental sobre tudo que consumimos, mas especialmente sobre as medicinas é, ao meu ver, básico para quem faz uso das medicinas da floresta. Desaprendemos a ter essa visão porque nossa cultura desvaloriza e marginaliza esse tipo de cuidado e preocupação com nossos semelhantes e com nosso futuro. Não deixemos que isso permeie nossas mentes e nosso uso dessas medicinas.

Outro ponto importante: Mais é mesmo sempre melhor que menos? Para a visão do Feminino saudável (e mesmo do Masculino saudável), não. O leite mais quente nem sempre é ideal para o recém-nascido. Mais e mais trabalho nem sempre é melhor para nossa sociedade. Mais e mais doce nem sempre (na verdade, quase nunca rsrs) é o melhor pra acalmar a TPM - que inclusive é um sintoma fortíssimo dessa cultura patriarcal. Um “rapé forte” é sempre melhor que um “rapé suave”? Pra começar, os rapés são tão previsíveis assim? Ao menos na minha experiência, não. Um tiquinho de nada de rapé só para uma “limpada” nas vias aéreas durante um processo alérgico leve já me abriu trabalhos espirituais importantíssimos e já tive vezes de caprichar na dose e não ter uma experiencia tão significativa. Quantidade nem sempre é o tópico principal, mas sim a forma de aplicar. A inteção, a reza, o sopro, o Amor com as pessoas da roda e o lugar da aplicação, o ambiente em que aplicamos, as condições enrgéticas e físicas dos tubinhos aplicadores (putz, agora esqueci o nome rsrs), a história do rapé utilizado.... Tudo isso tem um peso enooorme no processo que nem sempre é lembrado. E acima de tudo: o momento!
Apenas seu coração poderá te dizer qual o melhor momento para o rapé. Considere também suas condições físicas. Faça do rapé, um momento especial, assim como fazer amor. Prepare o ambiente com uma bela faxina do local, encontre a luz ideal, o assento ideal, o baldinho ideal, prepare seu corpo tomando um banho e cuidando para ter uma alimentação o mais saudável possível algumas horas antes do rapé, escolha uma boa trilha sonora para o momento (ou o silencio). Faça desse momento uma doação sua para você mesm@ e seus guias. Isso vai criando internamente também um ambiente psíquico mais saudável, mais receptivo, calmo, harmonioso. Não tem a ver com mistificar ou colocar um tabu no rapé, mas sim com valorizar este momento.Valorizar as folhas e o trabalho naquele tubinho  e mais: garanto que a experiencia em si é muito mais agregadora! Muito mais profunda, curativa e reveladora! Nesse ambiente, nesse “ritual”, a consciencia pode estar tão sensível e receptiva que a quantidade ou o quanto um rapé é “forte”, é secundário o processo. Preparar o ambiente é um “código” para o inconsciente e para as energias envolvidas. É uma maneira de dizer para nosso subconsciente: “Olá, inconsciente, agora vamos passar por uma experiencia diferente em que você vai poder me revelar processos e curas que eu estou necessitando este momento da minha existencia. Estou me preparando para receber você e seus presentes com alegria e amor”. Quer guarnição maior para uma experiencia do que essa preparação? Encontrar um momento e espaço limpinho, cheiroso e bonito para sentir-se acolhid@, à vontade e sem pressa?

Todas essas são reflexões do Feminino em relação ao rapé. Pode-se aplicá-las a todas as medicinas.
Vamos devolver esse olhar cuidadoso a todos os aspectos da nossa vida, e também ao uso das medicinas.


aux!!!!

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