Eu enquanto pessoa de pele clara não ousaria questionar uma luta negra.
Eu enquanto pessoa crescida em chão de madeira não ousaria questionar uma luta de moradores de rua.
Pelo simples motivo de que eu não senti na pele o que essas pessoas passaram. Posso ter uma noção, adquirida através da empatia e discernimento, mas nunca saberei tanto quanto um negro o que é ser negro - nem quanto um morador de rua o que é ser um morador de rua (a não ser que eu me torne uma um dia).
E exatamente por isso, respeito - e ouço - todas essas vozes!
Mas quando o assunto é feminismo, parece já ter uma alergia pré-existente nos ouvidos alheios. É tão frequente encontrar homens que julgam que sabem mais do que as mulheres o que as próprias mulheres passam e sentem - geralmente com alta dose de insensibilidade ou agressividade. Assim como em várias outras causas sociais. Mas o fato é que assim como eu não sei o que é ter meu patrão pedindo pra eu fazer chapinha pra ter uma aparência "mais higiênica" para os clientes, vocês não sabem o que é menstruação, violência obstétrica, assédio quase constante etc. A não ser por empatia e discernimento. Será que isso é tão difícil de entender?
Mas acredito que tenha um fator especial nesse processo: história pessoal. Claro! rsrs... Falar de "mulheres" é falar da mãe, da filha, da ex, da namorada, da esposa... É falar de pessoas próximas. É falar de intimidade, de traumas, de sonhos, de relacionamentos e frequentemente - de Amor. E é difícil encontrar pessoas nos debates que saibam separar uma coisa da outra. E nem todos estão dispostos a ver por outro ângulo de visão. Exatamente porque isso requer: empatia e discernimento! Habilidades que (advinha só!) estão relacionadas ao feminino em todos nós. Ó ironia!
Sim, feministas são chatas! São exigentes, falam exaustivamente em liberdade, em igualdade, em direitos humanos. Tocam na ferida, dão outras perspectivas para nossos convicções sempre tão frágeis... Um debate feminista pode rasgar nosso coração - sejamos homens ou mulheres. Um debate feminista pode ser apaixonante e aterrorizante ao mesmo tempo. Um grupo de feministas conversando pode ser repetitivo, entendiante - mas sempre desconfortável, sempre inquietante.
Mas não se preocupem. Existe espaço para homens no debate feminista SIM - e são extremamente bem-vindos! Assim como para pessoas brancas no debate sobre racismo. Assim como para pessoas com moradia no debate sobre moradia digna. Assim como para pais e familiares no debate sobre violência obstétrica. Mas para que esses debates sejam frutíferos é preciso partir dos testemunhos de quem sente isso tudo na pele! Com sensibilidade e respeito. E não dizendo a uma pessoa negra que ela podia ao menos "ser um pouco menos negra", ou "se esforçar para fazer chapinha na hora de ir pro trabalho". Não interessa num rebate sobre racismo se eu conheci 3 pessoas negras que foram rudes comigo. Isso é entre eu e essas pessoas. Assim como não interessa, num debate feminista, se você tem problemas com sua mãe, sua irmã ou dificuldades em se relacionar com o sexo oposto. É natural que a mente faça essas associações, é claro... Isso é esperado. Mas também espera-se que num debate sobre uma causa social, separemos nossas "nhacas" emocionais da causa abordada.
Um pouco mais de maturidade, por favor.
Grata.
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