Com cara de começo mesmo. Dessa vez, o Outono foi muito bem feito. Tanto de mim caiu na terra... Ninguém pensa que as árvores, quando chega a hora de cair as folhas, estão na verdade fazendo oferenda às próprias raízes. Geralmente vemos a perda, a nudez dos galhos, o sacrifício, a renovação... E do sacrifício do solo pra que estes galhos se fizessem? Ninguém se lemba. O outono é a primavera de ponta-cabeça, onde as flores sobem pra baixo - de volta pra casa. E eu, que este ano fiquei tão nua, tenho não-folhas o suficiente para hibernar profundamente até a próxima primavera. Hibernar... Sonhar... É "só" o lado de Lá. Assim como o outono é primavera de cabeça pra baixo, o sonho é, na verdade, o lado de dentro de existir. O lado de cá das pálpebras. Parece-me que o Inverno é quando a natureza fecha os olhos.
É mais fácil agora. tão mais fácil, tão mais leve... Permitir-se decepar das próprias folhas como o vento... Permitir-se despir-se de si pelo tempo... É exatamente esta a medida que nos permitimos rebrotar na Primavera, e nos adornarmos com todas as flores que nos cabem quando chegar o momento. Quem não aceita Inverno, não aceitará Verão. Não de verdade. Mas a aceitação das estações, a gente semeia. A minha, eu cultivo com carinho. Primeiro cultivei em segredo de mim, depois em segredo dos outros, depois sem segredo, e hoje com alegria. E alegria é mais alegre quando a gente partilha. Sempre me emociono quando percebo as estações mudando dentro de mim, criando raízes, tomando espaço... É como recuperar um pedaço esquecido de mim. Um pedaço importante. Um pedaço grande. Tão grande, que nele cabe tudo. Nada falta - nem mesmo a falta. Nem mesmo a pausa. Este espaço é meu refúgio, é meu termômetro, meu metrônomo. Ele me ensina do ritmo, do passo, de mim, do outro e do Mistério - que não se ensina nem aprende, só se vive.
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